Brasília, 23 de abril de 1984
Hoje tive uma briga feia com uma das minhas melhores amigas, a Beth. Estávamos na sala de aula, os alunos divididos em grupos para fazer um trabalho. Estávamos com o Gabriel, a Solange, e a esnobe da Érika, nova aluna da turma, em um círculo para fazer um trabalho sobre música da aula de literatura. Livros e cadernos estavam abertos e, na mesinha da Érika, havia um estojo de dois andares, cor de rosa, com imagens da Hello Kitty, que desencadeou toda a discussão. A Beth amou o estojo, perguntou onde a Érika havia comprado e ela, com aquele ar de superioridade, disse que seu pai havia trazido dos Estados Unidos. Para provocar, a Solange disse que a Beth poderia encontrar um igualzinho na Feira do Paraguai e iniciou a briga entre os países. De um lado, o Brasil, defendido com unhas e dentes pela Solange; do outro, os Estados Unidos, defendidos com estojos, jogos eletrônicos e McDonald´s pela Érika. Para apaziguar, resolvi intervir, chamando a atenção para o nosso trabalho. Já que o tema era música, sugeri que enfocássemos a nova tendência musical que vem surgindo no Brasil: o rock nacional, que está vindo com tudo e as letras estão trazendo muita mensagem legal para a juventude. Solange logo retrucou que música de atitude para ela é e sempre será a boa e velha MPB. Caetano, Gil, Gal, Chico, Maria Bethânia, essas coisas bregas que ela e o Gabriel adoram… Meu irmão argumentou que será difícil superar a turma da MPB, mas também bota fé nessa turma nova do rock, dizendo que o Cazuza é um verdadeiro poeta. Foi então que Érika entrou na discussão, dizendo que “brasileiro tem essa mania de achar que música foi feita para fazer protesto político”. Para ela, música tem que ter poesia, melodia, ritmo… e não mensagem. Até concordo com ela em certo ponto, mas também apoiei a resposta da Solange, que disse que “americano é mestre em lançar música com letra vazia”. Mas, ao contrário de mim, Solange é radicalmente contra a cultura que brasileiro tem de ouvir música estrangeira e achar lindo sem nem mesmo saber o que está cantando. Eu, que estudo inglês na Cultura Inglesa, entendo a letra e posso selecionar o que é bom e o que não é. Aí vem a Beth, dizendo que adora música internacional e começa a cantar a música do filme Flashdance, fazendo coro com a Érika. Essa, para piorar, me vira com a pior de suas colocações: “Por que não falar de samba? Afinal, é o maior produto nacional, não é?” Solange ficou furiosa e com razão. Garota esnobe! Como pode achar que a única música de qualidade que o Brasil sabe produzir é o samba? E isso porque, para os gringos, samba está relacionado ao carnaval e ao futebol…Como disse o Gabriel, mulata, cerveja, sol escaldante e Pelé… Mas o que me deixou com mais raiva foi constatar a forte amizade que estava nascendo entre a Beth e a Érika. Que ódio! Confesso que senti muito ciúme. Briguei mesmo com a Beth, acusei ela de estar me trocando pela Érika, de estar mudada, de não ser mais a mesma amiga de antes. Ela foi e revidou, alegando que eu estou mais próxima da Marisa que dela, que nós duas nos merecíamos porque éramos duas quadradas. Discutimos feio. No final, estávamos as duas rindo que nem bobas da palhaçada. Nos abraçamos e juramos amizade eterna.
Embora menos politizada que Solange, minha prima Bethânia também tinha bons e fortes motivos para abominar a ditadura. Primeiro porque era uma garota super liberal, moderna, bem a frente do seu tempo. Segundo porque a mãe – Suzana, prima-irmã da minha mãe, a quem Isabela e eu sempre chamamos de tia – era uma mulher nada conservadora, que já havia vencido vários preconceitos contra o fato de ser uma mulher independente, liberal e extremamente de vanguarda. Apesar do conservadorismo, da hipocrisia e do moralismo que regiam a sociedade na metade do século, não se casou, teve dois filhos em produção independente, fez duas faculdades – jornalismo e direito -, sustentava a família com seu próprio trabalho, engajou-se – mesmo que timidamente – na militância juvenil na década de 60, foi hippie na década de 70 e na década de 80, aos quarenta anos, agia como uma mulher jovem e solteira, saindo com os filhos para a diversão em boates e, muitas vezes, namorando homens bem mais jovens.
Leia o resto deste post »