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	<title>os filhos da revolução</title>
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	<description>Ficção e realidade em um romance nos anos 80 em Brasília</description>
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		<title>8</title>
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		<pubDate>Tue, 07 Apr 2009 17:12:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>patrickselvatti</dc:creator>
				<category><![CDATA[Diretas Já, Coca cola e virgindade]]></category>
		<category><![CDATA[Air Supply]]></category>
		<category><![CDATA[Making love out of nothing at all]]></category>
		<category><![CDATA[Marta Suplicy]]></category>
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		<category><![CDATA[SP2 amarelo da Volkswagen]]></category>
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		<category><![CDATA[TV Mulher]]></category>

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		<description><![CDATA[De volta à festa, Michael Jackson rolava na vitrola, embalando os passos moonwalker de um grupo de jovens. Procurei por Solange, mas não a encontrei. Passei por duas mulheres adultas que conversavam próximas à escada. Queixavam-se da modernidade, da liberação, da deturpação da moral e dos bons costumes. Punham a culpa na televisão. “Novela das [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=patrickselvatti2.wordpress.com&amp;blog=4900067&amp;post=121&amp;subd=patrickselvatti2&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">De volta à festa, Michael Jackson rolava na vitrola, embalando os passos moonwalker de um grupo de jovens. Procurei por Solange, mas não a encontrei. Passei por duas mulheres adultas que conversavam próximas à escada. Queixavam-se da modernidade, da liberação, da deturpação da moral e dos bons costumes. Punham a culpa na televisão.</p>
<p style="text-align:justify;">“Novela das oito é um antro da imoralidade. Onde já viu propagar para o Brasil inteiro que as mulheres no Rio fazem topless na praia?”</p>
<p style="text-align:justify;">“E o que dizer daquela Marta Suplicy falando abertamente de sexo no TV Mulher às nove horas da manhã?”</p>
<p style="text-align:justify;">Solange e eu estávamos bastante chateados. Enquanto Solange sentia enjôos por causa daqueles que ela classificava como “burguesinhos metidos a besta”, iniciava-se para mim o importante capítulo da minha história pessoal que eu resolvi dar o título de “Triângulo Amoroso Bizarro”, inspirado naquela música do New Order. Enquanto eu desejava ardentemente o Hugo, acreditando estar apenas querendo recuperar a forte amizade que um dia nos uniu, eu era o alvo do desejo de Érika, que, por sua vez, já havia se tornado a obsessão sexual do meu ex-melhor amigo.</p>
<p style="text-align:justify;"><span id="more-121"></span></p>
<p style="text-align:justify;">Ainda procurava por Solange quando Érika veio ao meu encontro. Ela usava uma calça fuseau rosa (daquelas largas em cima e estreitas embaixo, com uma tira sobre os pés), um lencinho amarrado no pescoço e segurava um cigarro delicadamente entre os dedos. Esse detalhe, aliás, era uma contradição: eu, que não queria nada com ela, achava legal a Érika fumar, mas o Hugo, mesmo sendo super a fim da garota, detestava cigarro e achava horrível ver uma garota fumando. Érika era uma das poucas colegas que já fumava na época do colégio: além dela, acho que só o Marcelo.</p>
<p style="text-align:justify;">Érika cumprimentou-me e me convidou para dançar. Estava tocando <em>Making love out of nothing at all</em>, do Air Supply, os casaizinhos já dançavam de rostinho colado. Recusei o convite, usando Solange como desculpa e ela quis saber se éramos namorados.</p>
<p style="text-align:justify;">“Não, somos amigos&#8230;”</p>
<p style="text-align:justify;">“É que vocês estão sempre juntos, só vocês&#8230; Acho que ela gosta de você, porque nunca deixa nenhuma garota se aproximar&#8230; ou é você que foge mesmo das garotas?”</p>
<p style="text-align:justify;">A resposta foi dada pela própria Solange, que se aproximou de nós. “Nem uma coisa nem outra. Gabriel e eu temos muitas afinidades e gostamos de ficar juntos. Nunca teve um amigo do sexo oposto?”</p>
<p style="text-align:justify;">Percebendo que não teria nenhuma chance enquanto Solange estivesse por perto, Érika fez uma retirada estratégica. Solange foi logo resmungando:</p>
<p style="text-align:justify;">“Garota mais atirada! Não fui com a cara dela desde que ela pisou na sala de aula. Lembra daquela discussão que tivemos por causa daquele trabalho sobre música?”</p>
<p style="text-align:justify;">“Também não fui com a cara dela. Mas, depois desse dia, achei que ela não falaria mais com a gente. Só que, de uns tempos pra cá, ela vive puxando assunto comigo e eu não vejo ela sequer se aproximar de você e da Isabela”</p>
<p style="text-align:justify;">“Cê não percebeu? Ela tá te azarando, seu bobo&#8230; Outro dia a Beth veio me perguntar se nós dois tínhamos algo mais e me contou que a Érika tá de olho em você&#8230;”</p>
<p style="text-align:justify;">Olhei para o lado e vi que a Érika estava dançando de rosto colado com o Hugo. Ela queria me despertar ciúmes e conseguiu. Ao ver os dois tão juntinhos me deu uma sensação estranha de perda, mas não com relação a ela. Lembro que o Hugo estava muito atraente naquela noite, usando uma calça jeans apertada e uma camiseta regata florida. Hugo e Érika não ficaram naquela noite, mas vê-los dançando foi o suficiente para me causar um ciúme doído.</p>
<p style="text-align:justify;">Deu-me uma súbita vontade de ir embora. Como Isabela iria dormir na casa da Marisa, poderia deixar a festa sem me preocupar. Solange adorou a idéia, mas eu achei melhor esperar pelos parabéns. Nos poucos minutos que ainda permaneci na festa, pude registrar alguns fatos, como os gêmeos Caco e Cadu tirando onda com uma garota e o Marcelo levando mais um fora da Bethânia, sempre suspirando pelo professor de dança.</p>
<p style="text-align:justify;">De importante mesmo, só a chegada do Fera, acompanhado de seu amigo de infância Rudy, que morava no Núcleo Bandeirante, primeira residência de Fera em Brasília. Rodolfo, vulgo Rudy, era um rapaz de classe social inferior a sua, filho de um dono de oficina mecânica com uma professora da rede pública de ensino. Rapaz simples, humilde e de excelente caráter, vale frisar. Esse, sim, foi, é e sempre será o melhor amigo do Fera.</p>
<p style="text-align:justify;">“Não vou me sentir bem numa casa de bacana assim, Fera”, eu ouvi o Rudy dizer, assim que entraram na mansão, visivelmente constrangido. Ele vestia um macacão jeans surrado sobre uma camiseta branca de malha e um Conga velho nos pés.</p>
<p style="text-align:justify;">“Relaxa, Rudy. Tá comigo, tá com Deus, esqueceu?”</p>
<p style="text-align:justify;">Fera olhou e logo avistou Isabela. Minha irmã estava conversando com o Juliano, um amigo do Caetano que insistia em puxar conversa com ela. Enquanto conversava com Juliano, Isabela não tirava os olhos de Fera, que, a essa altura já conversava com Horacinho e Marisa.  Olívia, irmã de Horacinho, também estava com eles e demonstrava que ainda estava interessada no Fera, jogando-lhe indiretas. Era um ano mais velha que o irmão, morena muito bonita, alta e esguia, macérrima; embora fosse manequim, sedutora e envolvente, não conseguia despertar mais nenhum interesse em Fera.</p>
<p style="text-align:justify;">Fera estava mesmo interessado em Isabela. O que impedia a aproximação deles era a presença de Juliano.</p>
<p style="text-align:justify;">“Então você vai mesmo fazer psicologia? Lembro que você comentou uma vez que talvez fizesse medicina&#8230;”, foi o que eu ouvi o Juliano dizer quando passava por perto.</p>
<p style="text-align:justify;">“No ginásio, cheguei a cogitar medicina, mas acho que psicologia é a melhor opção&#8230;.”</p>
<p style="text-align:justify;">“Estou no terceiro ano de medicina e estou adorando.”</p>
<p style="text-align:justify;">“De fato, é uma carreira muito bonita&#8230;”, ainda pude ouvir minha irmã dizer antes de me afastar totalmente.</p>
<p style="text-align:justify;">Agora eu estava ouvindo a conversa de Horacinho, Fera e Rudy. Marisa e Olívia tinham ido ao banheiro, vi quando as duas passaram. Horacinho discursava com arrogância sobre tênis e hipismo, seus esportes favoritos, que nem um dos seus ouvintes praticava. Rudy sequer tinha muito conhecimento a respeito.</p>
<p style="text-align:justify;">“Fala sério, cara! Que seu amigo aí ache que só futebol é esporte, vá lá, mas você, Fera, é dos meus&#8230;”</p>
<p style="text-align:justify;">“Quem disse que eu só entendo de futebol?”, quis saber Rudy. “Pra falar a verdade, eu nem jogo bola. Esporte para mim é Fórmula 1. Sou amarradão em carros e velocidade.”</p>
<p style="text-align:justify;">“Tou contigo, Rudy. Nada como o ronco dos motores”, disse o Fera, entre uma olhada e outra na direção de minha irmã.</p>
<p style="text-align:justify;">Horacinho se achava o máximo porque tinha um SP2 amarelo da Volkswagen, com bancos esportivos em couro marrom, que, na verdade, tinha sido muito cobiçado na década de 70, mas naquela época já era meio demodé. O engraçado é que, hoje, ser proprietário de um SP2 em bom estado é com certeza um motivo de muita satisfação, sendo privilégio de poucos colecionadores e alguns museus. Ele bem que tentou usar o seu carro para se exibir para Rudy, mas, a partir daí, o pernóstico Horacinho foi ignorado solenemente. Fera e Rudy falavam como se ele não estivesse presente.</p>
<p style="text-align:justify;">Rudy: “Então, Fera, nosso conterrâneo Nelson Piquet está dando um show nos autódromos. Primeiríssimo lugar em 81 e 83”</p>
<p style="text-align:justify;">Fera: “Gosto do Piquet, mas tu viu o tal do Ayrton Senna, Rudy? Estreou este ano na Fórmula 1 pilotando uma Toleman e já mostrou a que veio. Largou em 13º, completou a volta em 9º e ultrapassou campeões como Lauda e Rosberg. Ia passar a McLaren do Prost também se o francesinho fresco não tivesse reclamado tanto da chuva a ponto da corrida ser interrompida&#8230;”</p>
<p style="text-align:justify;">Rudy: “Cara, fiquei impressionado com o que aconteceu com o Nigel Mansell. Largou na pole position, tinha tudo para dominar o GP, faltou gasolina nos últimos metros, saltou do carro, foi empurrando para tentar receber bandeirada e desmaiou na reta final, ficando em sexto lugar&#8230; Isso é que eu chamo de determinação!”</p>
<p style="text-align:justify;">Mesmo conversando empolgadamente com Rudy, Fera não tirava os olhos do ponto onde estavam Isabela e Juliano. Horacinho se manteve próximo, com cara de tacho até que Marisa e Olívia voltaram. Aliviado, ele beijou a namorada e insinuou que saíssem do local, mas Fera chamou Marisa.</p>
<p style="text-align:justify;">“Quem é esse cara que está falando com sua amiga, hein?”, foi o que ele quis saber.</p>
<p style="text-align:justify;">“O Juliano?”</p>
<p style="text-align:justify;">“Tremendo caroço!”</p>
<p style="text-align:justify;">“Conheço do Iate Clube, também joga tênis lá”, interveio o Horacinho. “Lembro dele também no Duque de Caxias, uma turma acima da minha. Sempre foi a fim da Isabela, mas nunca deu em nada porque ela era muito novinha”</p>
<p style="text-align:justify;">“Fazia tempo que a gente não o via, mas parece que ele não desistiu&#8230;”, concluiu a Marisa.</p>
<p style="text-align:justify;">“Pelo visto você está mesmo a fim da Chapeuzinho Vermelho, hein, Fera?”, constatou Olívia, com desdém, referindo-se à cor da roupa que minha irmã estava usando. “Não acha que ela é muito novinha para você, Lobo Mau?”</p>
<p style="text-align:justify;">“Essa é a parte do filme em que eu dou risada da sua dor de cotovelo, Olívia Palito?”, foi o que Fera retrucou, com ironia.</p>
<p style="text-align:justify;">“Podia ter dormido sem essa, maninha”, o Horacinho cochichou.</p>
<p style="text-align:justify;">Vendo a ansiedade de Fera e a evidente irritação de Isabela por causa do assédio de Juliano, Marisa trouxe a solução. Dizendo que daria um jeito, foi em direção ao casal. Mesmo de longe, pude ouvir o que ela disse.</p>
<p style="text-align:justify;">“Isa, tou precisando muito de sua ajuda. Você me empresta minha amiga um pouquinho, doutorzinho?”</p>
<p style="text-align:justify;">Juliano sorriu, afirmativamente, um pouco constrangido. Marisa pegou Isabela pela mão e foi conduzindo-a até outro ponto da festa. Fera deu um tempo e foi atrás, deixando Rudy com Horacinho e Olívia. Ainda pude ouvir um pouco da conversa deles. O assunto da vez era política e quem ficou meio que vendido desta vez foi o Rudy.</p>
<p style="text-align:justify;">“O bom da nossa geração é que a gente é que vai comandar esse país”, afirmou Horacinho.</p>
<p style="text-align:justify;">“Loucura isso, né? Daqui a vinte anos, nós é que estaremos no poder”, afirmou o Rudy, interferindo na conversa.</p>
<p style="text-align:justify;">“Nós&#8230; quem?”, perguntou o Horacinho, com evidente desdém.</p>
<p style="text-align:justify;">“Nós, uai. Eu, você, ela, qualquer um que esteja nessa festa e tenha vinte e poucos anos&#8230;”, foi a resposta sincera e ingênua de Rudy.</p>
<p style="text-align:justify;">“O que você faz mesmo?”, questionou Olívia, tão esnobe quanto o irmão.</p>
<p style="text-align:justify;">“Sou mecânico de carros”, ele falou, cheio de orgulho por ter concluído um curso profissionalizante no SENAI.</p>
<p style="text-align:justify;">Horacinho deu uma risada debochada. Olívia o acompanhou. “Nós, sim, certamente estaremos no poder daqui a vinte anos. Mas você, no comando desse país? Faça-me rir, cara&#8230;”</p>
<p style="text-align:justify;">“Até onde me consta, a engrenagem que faz a máquina do Brasil funcionar não precisa necessariamente de um mecânico”, acrescentou a Olívia.</p>
<p style="text-align:justify;">O pobre do Rudy desejou um buraco para esconder seu rosto de vergonha. Que babacas, tanto o Horacinho quanto a irmã magricela! Senti vontade de socorrer o Rudy, mas a tia Suzana chamou para cantar os parabéns. Solange e eu não esperamos pelo bolo. O restante da festa minha irmã faz questão de contar, sob seu ponto de vista.</p>
<p style="text-align:justify;">(continua&#8230;)</p>
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		<pubDate>Thu, 02 Apr 2009 19:59:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>patrickselvatti</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Bethânia morava em uma casa na Asa Sul. Naquele último sábado do mês de abril, dia 28, tia Suzana abriu as portas de sua residência para comemorar o aniversário de dezoito anos de sua filha. Quando Isabela e eu chegamos – mamãe não foi, porque papai estava viajando e ela não saía de casa à [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=patrickselvatti2.wordpress.com&amp;blog=4900067&amp;post=117&amp;subd=patrickselvatti2&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">Bethânia morava em uma casa na Asa Sul. Naquele último sábado do mês de abril, dia 28, tia Suzana abriu as portas de sua residência para comemorar o aniversário de dezoito anos de sua filha. Quando Isabela e eu chegamos – mamãe não foi, porque papai estava viajando e ela não saía de casa à noite sem ele! -, já haviam uns trinta jovens espalhados pela casa, conversando ou servindo-se de comida. Muitos eram alunos do terceiro ano do Colégio Duque de Caxias, mas havia gente da academia de dança e também pessoas mais velhas, amigos de tia Suzana, que fazia questão de receber os convidados ao lado de Bethânia. No som, tocava Whisky a go go, sucesso do Roupa Nova na época, embalando os jovens que dançavam animadamente na pista de dança improvisada.</p>
<p style="text-align:justify;">Lembro como se fosse ontem: Bethânia estava linda e felicíssima com o fato de ter completado dezoito anos. Lembro também que Isabela disse que mal podia esperar pela hora de completar a maioridade também e tia Suzana falou que passava rápido. Ah, lembro também que tia Suzana lamentou muito a ausência de mamãe, sua prima-irmã tão querida.</p>
<p style="text-align:justify;"><span id="more-117"></span></p>
<p style="text-align:justify;">“Gosto muito e respeito demais sua mãe. Mas ela devia ser menos dependente do seu pai. Sei que Jorge não gosta muito de mim e nem duvido nada que tenha inventado essa viagem para não vir à minha casa. Seu pai acha que eu não sou uma boa influência para sua mãe&#8230; Mas tudo bem! Ela é minha prima e isso ele não vai poder mudar”</p>
<p style="text-align:justify;">Tia Suzana estava coberta de razão. Naquela noite, mais tarde eu vim a saber, meu pai não estava fora de Brasília coisa alguma. Ao contrário: a viagem a trabalho era pretexto para passar a noite com uma amante qualquer enquanto minha mãe ficava em casa sozinha, assistindo &#8230;E o vento levou pela milésima quinta vez e chorando feito uma mocinha apaixonada. Papai e mamãe não eram um casal feliz e apaixonado. Hoje eu vejo que eles sempre viveram um casamento de aparências. Muito conservador, meu pai não admitia que o sexo com a esposa fosse algo natural, instintivo, entre um homem e uma mulher. Com as mulheres na rua, ele era um verdadeiro amante, mas em casa, era apenas marido. Acho que eles nunca experimentaram outra posição além do tradicional papai-e-mamãe. Na verdade, a impressão que eu tenho é que eles só fizeram sexo uma vez na vida. Por isso, tiveram gêmeos.</p>
<p style="text-align:justify;">“Sabia que vamos ficar noivos no fim do ano, dona Suzana?”, observou Marisa, abraçando o namorado Horacinho.</p>
<p style="text-align:justify;">“Que bom, minha filha! Sua mãe deve estar muito feliz&#8230; Mas tire o dona, pelo amor de Deus!”, ela pediu, antes de virar-se para Horacinho. “Como está na faculdade de direito?”</p>
<p style="text-align:justify;">“Estou curtindo muito a faculdade, dona, digo, Suzana. Não consegui entrar na UnB, mas a galera do CEUB é bem legal. Tem uma galera meio louca, que curte uns lances que não combinam comigo, mas&#8230;”</p>
<p style="text-align:justify;">“Seu pai deve estar orgulhoso por você seguir a carreira dele. Vai ser juiz também?”</p>
<p style="text-align:justify;">“Ainda não me decidi. Tenho certa inclinação pela política, sabe?”</p>
<p style="text-align:justify;">“Bethânia diz que vai fazer Artes Cênicas. Quer ser atriz, pode? O Caetano está adorando a faculdade de Comunicação. Está muito empolgado”</p>
<p style="text-align:justify;">Tia Suzana referia-se ao seu filho mais velho. Fã de música popular brasileira, ela – que também tinha vocação artística, foi atriz de teatro e cantava com uma linda voz – não hesitou em batizar seus dois filhos com os nomes dos filhos de dona Canô. A diferença de idade de quase dez anos entre Caetano e Bethânia – ou Caê e Beth – e o fato de não serem filhos do mesmo pai em nada influenciava no relacionamento deles. Eram muito parecidos – tinham a pele branca, os cabelos louros &#8211; grandes amigos e, muitas vezes, cúmplices e confidentes. Caê sabia muito bem, por exemplo, que a irmã estava aguardando com ansiedade a chegada de seu professor de dança e tinha intenções bem ousadas para aquela noite. No entanto, apesar da naturalidade com que encarava a vida sexual da irmã, com relação a mãe sua postura era bem outra. Embora não demonstrasse, no fundo sentia uma certa vergonha do fato de não conhecer a identidade de seu pai e de a mãe nunca ter se casado. Fora isso, sempre foi um rapaz bem instruído, de excelente caráter e muita personalidade, como demonstra a conversa que registrei entre ele e Horacinho – que, ao contrário, sempre foi um hipócrita, preconceituoso, demagogo, falso moralista mesmo. Não à toa, anos mais tarde viraria um político corrupto.</p>
<p style="text-align:justify;">“Jornalismo é coisa para gente utópica, Caetano. O lance agora da comunicação é a publicidade. Hoje em dia fazer propaganda é o que dá dinheiro”</p>
<p style="text-align:justify;">“Corta essa, cara. Não estou fazendo comunicação para abastecer a sociedade de consumo. Propaganda é o combustível do mundo capitalista e eu sou contra essa coisa desenfreada do ter a todo custo. Vou me profissionalizar para fazer jornalismo conscientizado, com responsabilidade social. O Brasil está precisando de educação, cultura, consciência política&#8230; e não de consumismo alienado”</p>
<p style="text-align:justify;">“Mais vale um alienado rico do que um idealista fracassado. Você quer se formar para ganhar dinheiro ou prefere envelhecer como seu tio, brigando contra o sistema e andando de ônibus coletivo?”</p>
<p style="text-align:justify;">Se o babaca do Horácio conhecesse o tio Roberto intimamente, não teria dito uma idiotice dessas. O irmão de tia Suzana podia até ser um sonhador, um idealista, um utópico pouco prático, mas sempre foi um homem admirável. Naquela época, se eu afirmasse isso na frente do meu pai, acho que perderia os dois dentes da frente. Jorge Raposo e Roberto Galhardo nasceram para ser inimigos eternos. Motivos não faltavam para que se odiassem – mesmo que de forma velada, como reza a boa cartilha da sociedade hipócrita. Além de defenderem ideais antagônicos, amavam a mesma mulher. Sim, minha mãe, aquela dona de casa aparentemente sem atrativos, trancafiada durante anos dentro de casa, cuidando de marido e filhos, escondia uma bela mulher capaz de levar dois belos e disputados homens a um duelo amoroso e social. De um lado, o militar conservador e reacionário; do outro, o jornalista de esquerda idealista. O triângulo amoroso Jorge-Ester-Roberto daria um capítulo à parte nessa história. Mais que isso: daria um romance específico, um filme de amor e guerra. Tio Roberto chegou a citar o seu namoro com minha mãe no livro que escreveu durante o exílio.</p>
<p style="text-align:justify;"> <em>“(&#8230;) Ester era minha prima, de primeiro grau, mas éramos apaixonados um pelo outro. Quando crianças, falávamos que nos casaríamos, teríamos três filhos e moraríamos numa bela casa à beira do lago Paranoá. Quando já éramos adultos e namorávamos firme, Ester ainda mantinha esse sonho, mas eu já dedicava minha juventude, meu talento e minha vida a lutar por causas sociais, como um Davi versus o Golias que é o sistema político brasileiro.<br />
 (&#8230;) Nosso namoro entrou em sua pior crise em 1964, quando veio o golpe militar. Engajei-me na luta armada, frustrando todos os projetos de vida de Ester. Depois de várias discussões, cada vez mais envolvido na revolução, em 1966, eu entendi que o melhor era deixar Ester livre para conhecer outro homem que atendesse seus anseios e a fizesse feliz. O que eu não esperava era que Ester fosse se envolver justamente com o Jorge, um jovem militar que se mostrava totalmente reacionário e favorável ao sistema da ditadura vigente.<br />
 Jorge e Ester se casaram depois de poucos meses de namoro. No mesmo ano, tiveram um casal de gêmeos: Gabriel e Isabela. Enquanto isso, eu me engajava cada vez mais na luta armada. Em 1968, após o AI-5, fui preso e torturado. Consegui ser libertado, mas voltei ainda mais revoltado com o que acontecia e, em 1970, após participar do seqüestro de um embaixador, fui exilado. (&#8230;)<br />
 De volta ao Brasil, em 1979, encontrei Ester aparentemente feliz ao lado de Jorge e do casal de filhos. Mesmo após um afastamento forçado de dez anos, um pouco abatido e machucado pelo tempo, eu ainda carregava comigo duas grandes certezas: o amor por Ester e o desejo de continuar lutando pelos meus ideais (&#8230;)”.</em></p>
<p style="text-align:justify;">Naquela noite do aniversário de Bethânia, enquanto minha mãe se debulhava em lágrimas na frente da tevê, tio Roberto estava isolado em seu quarto. Quando tia Suzana e eu fomos chamá-lo para cantar os parabéns, tio Roberto estava sentado de frente para uma escrivaninha, digitando rapidamente em uma máquina de escrever. Uma forte fumaça de cigarro tomava conta do quarto. Tio Roberto era um fumante compulsivo, desses que vivem com o cigarro aceso, sabe? Aliás, essa era sua única semelhança com o meu pai, outro fumante inveterado. Sim, única, pois o amor que tio Roberto sempre sentiu pela minha mãe o meu pai nunca sentiu.</p>
<p style="text-align:justify;">“Não vai descer para a festa? Já vamos cantar os parabéns&#8230;”, quis saber tia Suzana.</p>
<p style="text-align:justify;">“Daqui a pouco. Preciso terminar esse artigo”, foi o que ele falou.</p>
<p style="text-align:justify;">“Ainda está escrevendo seu livro?”, eu quis saber.</p>
<p style="text-align:justify;">“Estou escrevendo sobre a derrota das eleições diretas no Congresso. É um artigo para uma revista, mas talvez eu até aproveite para incrementar meu livro. Do jeito que as coisas estão indo, talvez eu inclua esses últimos acontecimentos na história”</p>
<p style="text-align:justify;">“Meu irmão&#8230;”, a tia Suzana foi falando, cheia de carinho. “Você sabe que eu concordo com todas as idéias que você defende. Mas você não acha que está na hora de pensar um pouco mais em si mesmo? Poxa, você lutou, foi preso, torturado, exilado&#8230; Dez anos fora do Brasil, vivendo em países desconhecidos, sem poder voltar à sua terra natal! Não acha que já se deu o suficiente por essa causa? Faz cinco anos que você voltou para casa e continua vivendo como se estivesse no exílio, trancado nesse quarto, escrevendo artigos ideológicos&#8230;”</p>
<p style="text-align:justify;">“Não nasci para ser um pequeno-burguês, minha irmã. Estou bem assim e não consigo me imaginar diferente do que sou”</p>
<p style="text-align:justify;">“Mas pelo menos cantar parabéns para sua sobrinha&#8230;”</p>
<p style="text-align:justify;">“Está certo. Vamos lá cantar os parabéns para nossa Bethânia&#8230;”</p>
<p style="text-align:justify;">Tio Roberto apagou o cigarro no cinzeiro, tirou a folha da máquina de escrever e levantou-se. Nos abraçou e, enquanto caminhávamos até a porta, quis saber se minha mãe tinha ido. Respondi que não e expliquei suas razões.</p>
<p style="text-align:justify;">“Não me conformo. Como uma moça tão bonita, alegre, cheia de sonhos, pôde se transformar numa mulher tão submissa, apagada, passiva?”</p>
<p style="text-align:justify;">“Você trocou a oportunidade de viver um grande amor por amor a uma causa”, observou a irmã.</p>
<p style="text-align:justify;">“Tantos anos se passaram e você ainda alimenta essa paixão, tio?”</p>
<p style="text-align:justify;">“Sua mãe não nasceu para viver com um idealista como eu, mas também não merecia um carrasco como seu pai. Tinha que se casar justamente com um milico reaça?!”</p>
<p style="text-align:justify;">(continua&#8230;)</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/patrickselvatti2.wordpress.com/117/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/patrickselvatti2.wordpress.com/117/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/patrickselvatti2.wordpress.com/117/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/patrickselvatti2.wordpress.com/117/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/patrickselvatti2.wordpress.com/117/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/patrickselvatti2.wordpress.com/117/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/patrickselvatti2.wordpress.com/117/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/patrickselvatti2.wordpress.com/117/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/patrickselvatti2.wordpress.com/117/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/patrickselvatti2.wordpress.com/117/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/patrickselvatti2.wordpress.com/117/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/patrickselvatti2.wordpress.com/117/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/patrickselvatti2.wordpress.com/117/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/patrickselvatti2.wordpress.com/117/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=patrickselvatti2.wordpress.com&amp;blog=4900067&amp;post=117&amp;subd=patrickselvatti2&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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			<media:title type="html">Patrick Selvatti</media:title>
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		<title>6</title>
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		<pubDate>Thu, 02 Apr 2009 19:52:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>patrickselvatti</dc:creator>
				<category><![CDATA[Diretas Já, Coca cola e virgindade]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><em>Brasília, 23 de abril de 1984</em></p>
<p style="text-align:justify;"><em>Hoje tive uma briga feia com uma das minhas melhores amigas, a Beth. Estávamos na sala de aula, os alunos divididos em grupos para fazer um trabalho. Estávamos com o Gabriel, a Solange, e a esnobe da Érika, nova aluna da turma, em um círculo para fazer um trabalho sobre música da aula de literatura. Livros e cadernos estavam abertos e, na mesinha da Érika, havia um estojo de dois andares, cor de rosa, com imagens da Hello Kitty, que desencadeou toda a discussão. A Beth amou o estojo, perguntou onde a Érika havia comprado e ela, com aquele ar de superioridade, disse que seu pai havia trazido dos Estados Unidos. Para provocar, a Solange disse que a Beth poderia encontrar um igualzinho na Feira do Paraguai e iniciou a briga entre os países. De um lado, o Brasil, defendido com unhas e dentes pela Solange; do outro, os Estados Unidos, defendidos com estojos, jogos eletrônicos e McDonald´s pela Érika. Para apaziguar, resolvi intervir, chamando a atenção para o nosso trabalho. Já que o tema era música, sugeri que enfocássemos a nova tendência musical que vem surgindo no Brasil: o rock nacional, que está vindo com tudo e as letras estão trazendo muita mensagem legal para a juventude. Solange logo retrucou que música de atitude para ela é e sempre será a boa e velha MPB. Caetano, Gil, Gal, Chico, Maria Bethânia, essas coisas bregas que ela e o Gabriel adoram&#8230; Meu irmão argumentou que será difícil superar a turma da MPB, mas também bota fé nessa turma nova do rock, dizendo que o Cazuza é um verdadeiro poeta. Foi então que Érika entrou na discussão, dizendo que “brasileiro tem essa mania de achar que música foi feita para fazer protesto político”. Para ela, música tem que ter poesia, melodia, ritmo&#8230; e não mensagem. Até concordo com ela em certo ponto, mas também apoiei a resposta da Solange, que disse que “americano é mestre em lançar música com letra vazia”. Mas, ao contrário de mim, Solange é radicalmente contra a cultura que brasileiro tem de ouvir música estrangeira e achar lindo sem nem mesmo saber o que está cantando. Eu, que estudo inglês na Cultura Inglesa, entendo a letra e posso selecionar o que é bom e o que não é. Aí vem a Beth, dizendo que adora música internacional e começa a cantar a música do filme </em>Flashdance<em>, fazendo coro com a Érika. Essa, para piorar, me vira com a pior de suas colocações: “Por que não falar de samba? Afinal, é o maior produto nacional, não é?” Solange ficou furiosa e com razão. Garota esnobe! Como pode achar que a única música de qualidade que o Brasil sabe produzir é o samba? E isso porque, para os gringos, samba está relacionado ao carnaval e ao futebol&#8230;Como disse o Gabriel, mulata, cerveja, sol escaldante e Pelé&#8230; Mas o que me deixou com mais raiva foi constatar a forte amizade que estava nascendo entre a Beth e a Érika. Que ódio! Confesso que senti muito ciúme. Briguei mesmo com a Beth, acusei ela de estar me trocando pela Érika, de estar mudada, de não ser mais a mesma amiga de antes. Ela foi e revidou, alegando que eu estou mais próxima da Marisa que dela, que nós duas nos merecíamos porque éramos duas quadradas. Discutimos feio. No final, estávamos as duas rindo que nem bobas da palhaçada. Nos abraçamos e juramos amizade eterna.</em><br />
 <br />
Embora menos politizada que Solange, minha prima Bethânia também tinha bons e fortes motivos para abominar a ditadura. Primeiro porque era uma garota super liberal, moderna, bem a frente do seu tempo. Segundo porque a mãe &#8211; Suzana, prima-irmã da minha mãe, a quem Isabela e eu sempre chamamos de tia &#8211; era uma mulher nada conservadora, que já havia vencido vários preconceitos contra o fato de ser uma mulher independente, liberal e extremamente de vanguarda. Apesar do conservadorismo, da hipocrisia e do moralismo que regiam a sociedade na metade do século, não se casou, teve dois filhos em produção independente, fez duas faculdades – jornalismo e direito -, sustentava a família com seu próprio trabalho, engajou-se – mesmo que timidamente – na militância juvenil na década de 60, foi hippie na década de 70 e na década de 80, aos quarenta anos, agia como uma mulher jovem e solteira, saindo com os filhos para a diversão em boates e, muitas vezes, namorando homens bem mais jovens.</p>
<p style="text-align:justify;"><span id="more-114"></span></p>
<p style="text-align:justify;">Mas o maior motivo que levava Beth a lutar contra os resquícios da ditadura era bem parecido com o de Solange. Afinal, seu tio, Roberto, irmão de sua mãe, seu grande ídolo, modelo paterno, era um jornalista de esquerda bastante atuante que havia se engajado de corpo e alma na luta armada, sendo por isso preso, torturado e exilado, vivendo dez anos fora do Brasil, época em que escreveu um romance em que narrou os horrores vividos nos tempos de chumbo, chamado <em>Liberdade ainda que tardia</em>. Mais tarde, falarei um pouco mais sobre o tio Roberto, que teve uma participação muito grande nessa história que eu me propus a contar, sendo inclusive um dos meus maiores colaboradores neste momento.</p>
<p style="text-align:justify;">O que importa agora é falar um pouco sobre Bethânia, essa menina linda, inteligente, divertida e feliz de quem todos nós sentimos muita saudade. Apesar dessa simpatia pela causa anti-militar, o que mais caracterizava a personalidade de Beth era sua alegria de viver. Solange não conseguia entender como ela podia ser conscientizada, participando com a gente do abaixo-assinado para impedir a demissão da professora Patrícia, mostrando-se revoltada com o que aconteceu com o tio no passado, e, ao mesmo tempo, mostrar-se tão fútil, compactuando com o esnobismo americanizado de Érika, como no episódio descrito em diário pela minha irmã.</p>
<p style="text-align:justify;">Desde menina, Bethânia gostava muito de dançar. Até os dezesseis anos, estudava balé e era uma das bailarinas mais promissoras da escola clássica mais tradicional de Brasília. No entanto, após o sucesso do filme <em>Flashdance</em>, tudo mudou. Beth largou a sapatilha e a música clássica e foi ser feliz com suas polainas de lã e o moletom rasgado nas aulas de jazz. Há mais de um ano, fazia aulas em uma academia de dança moderna na Asa Norte e, ao som do hit <em>What a feeling!</em>, na voz de Irene Cara, vestindo roupa de ginástica, três vezes por semana batia os pés no chão freneticamente e balançando a cabeça de um lado para o outro, orientadas pelo professor Martim Ferraz.</p>
<p style="text-align:justify;">Naquele mesmo dia, após a discussão com Isabela, Bethânia encontrou Érika na aula e pediu-lhe que relevasse tudo o que havia acontecido na manhã entre elas e nós, a turma do nacionalismo. Foi nessa ocasião que Beth tomou conhecimento do interesse que Érika estava começando a ter em mim. Beth ficou surpresa: assim como todo mundo no colégio, achou que Érika estivesse ficando com Hugo.</p>
<p style="text-align:justify;">“Do you be crazy?! Esse garoto anda me azarando, mas não vejo a menor graça nele”, ela revelou, surpreendendo Beth.</p>
<p style="text-align:justify;">“Fica se exibindo todo, feito um pavão, usando roupa de surfista, como se aqui em Brasília tivesse mar&#8230; Só falta pegar uma prancha e surfar no lago Paranoá para se mostrar. Até o cabelo ele já tingiu de louro com parafina&#8230;”</p>
<p style="text-align:justify;">“Eu gosto mesmo é de homem mais velho, mas nove entre dez garotas do colégio arrastam um bonde pelo Hugostoso. Você, além de dispensar o gato do colégio, ainda diz que prefere o Gabriel? É surpreendente”</p>
<p style="text-align:justify;">“Esse Hugo tem o cérebro guardado dentro da cueca, Beth”</p>
<p style="text-align:justify;">“Ah, isso é verdade&#8230;”</p>
<p style="text-align:justify;">“Além do mais, gosto de garotos com cara de menino, tipo babyface, sabe?”</p>
<p style="text-align:justify;">“Ah, pois homem pra mim tem que ter cara de homem&#8230; Nada que lembre o Hugo e aquele grupinho dele. O Marcelo agora cismou de dar em cima de mim. Vê se eu vou dar bola prum carinha que anda com o Hugo e vive lambendo o chão que ele pisa? Agora&#8230; Dá só uma olhada no nosso professor. Ele, sim, é o tipo de cara que me faz a cabeça&#8230;”, falou Beth, quase babando pelo professor Martim.</p>
<p style="text-align:justify;">“Ele não tem namorada, tem?”</p>
<p style="text-align:justify;">“Acho que não. Ele conversa muito com essa professora Carla, dona da academia, mas se ela for namorada dele, azar o dela&#8230;”</p>
<p style="text-align:justify;">“Beth! Tou falando do Gabriel&#8230; Só vejo ele agarrado com a Solange&#8230;”</p>
<p style="text-align:justify;">“Não, eles não são namorados, não&#8230; Aliás, nunca soube que o Gabriel tivesse alguma namorada&#8230; Não posso afirmar, mas tenho quase certeza de que ele é virgem”, ela disse, revelando o que eu sempre guardei em segredo.</p>
<p style="text-align:justify;">“Virgem?! Não? Cê tá brincando!&#8230;” Érika estava chocada.</p>
<p style="text-align:justify;">“De boca e tudo!”, a Beth acrescentou.</p>
<p style="text-align:justify;">“It´s amazing! Isso precisa ser resolvido imediatamente!”</p>
<p style="text-align:justify;">“No sábado é meu aniversário. Quem sabe lá você não tem uma grande chance? Eu já tratei de convidar nosso professor de dança. De sábado, ele não me escapa!”</p>
<p style="text-align:justify;">(continua&#8230;)</p>
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		<pubDate>Tue, 31 Mar 2009 15:05:45 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Brasília, 18 de abril de 1984 Querido diário, Nem acredito no que aconteceu! Acabei de chegar do colégio, mamãe está lá na cozinha me gritando, mas eu não vou conseguir almoçar enquanto não passar para você a minha alegria. Marisa e eu estávamos saindo do colégio, comendo jujubas – que a Marisa acha que deveriam [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=patrickselvatti2.wordpress.com&amp;blog=4900067&amp;post=108&amp;subd=patrickselvatti2&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><em>Brasília, 18 de abril de 1984 </em></p>
<p style="text-align:justify;"><em>Querido diário, Nem acredito no que aconteceu! Acabei de chegar do colégio, mamãe está lá na cozinha me gritando, mas eu não vou conseguir almoçar enquanto não passar para você a minha alegria. Marisa e eu estávamos saindo do colégio, comendo jujubas – que a Marisa acha que deveriam fabricar somente as vermelhas já que quase ninguém come as de limão e laranja – quando, do outro lado da rua, vimos o Fera atravessando em nossa direção. Estava usando uma camisa preta do Kiss, uma calça jeans rasgada e um tênis Montreal, de cabelão solto, fumando um cigarro. Veio todo sem graça, perguntando se nós éramos as garotas que estavam no seu show com o Horacinho e nos ofereceu carona para casa. Eu não quis aceitar, tive medo, mas a Marisa me convenceu. Afinal, que mal há em aceitar uma carona?No carro, enquanto Marisa falava o tempo todo, eu me mantive calada, totalmente envergonhada com os olhares dele. O som do carro estava ligado, tocava uma música do Barão Vermelho e a conversa girou em torno de rock nacional, que tá em alta, que tem muita coisa boa surgindo aqui mesmo em Brasília, como Os Paralamas do Sucesso, que lançaram o primeiro disco no ano passado, lançaram outro este ano e já estão nas paradas&#8230; Fera falou que curte o som deles, embora ache muito parecido com o The Police. Marisa falou que gosta do Kid Abelha e Os Abóboras Selvagens e que eu também adoro aquela música</em> Como eu quero<em>, chegou até a cantarolar aquele trecho que fala: “uhh&#8230; eu quero você, como eu quero&#8230;” Eu apenas sorri, tímida. Fera comentou sobre a Legião Urbana. Disse que o líder da banda, Renato, é um dos caras mais inteligentes que já conheceu, freqüenta o apartamento dele na 303 Sul, bate altos papos com ele. O som deles é bacana, em breve eles lançam o primeiro disco e Fera acredita que eles vão arrasar. O assunto rendeu tanto que, quando vimos, estávamos na porta da casa da Marisa. Eu quis descer lá também, seguir a pé, estava perto de casa, mas Fera retrucou que duas quadras aqui no Lago Norte são quilômetros. Seguimos então com o carro. O silêncio durou alguns segundos. Fera puxou papo, perguntando se eu estava lhe evitando. Disse que não achava legal aceitar carona de um cara que não conhecia direito, mas ele retrucou um “mas a gente se conhece, eu até cantei uma música para você antes mesmo de saber seu nome&#8230;” Eu não acreditava que ele tivesse cantado diretamente para mim, mas ele declarou que se encantou comigo desde o momento em que me viu lá de cima do palco. Disse que ele deveria dizer isso para todas, que estava na cara que ele era um tipo sedutor que atira para todos os lados. Pelo menos, essa é sua fama. Fera disse que as pessoas falam muita bobagem a seu respeito, mas não negou quando eu disse que ele era um cara rodeado de mulheres. “Sou um cara simpático, canto numa banda legal&#8230; Normal que as mulheres se interessem por mim. Mas eu não sou assim tão promíscuo&#8230;”, ele se defendeu. Toquei no assunto da Olívia e ele jurou que era apenas uma garota com quem estava ficando mais vezes, mas negou que estivesse namorando a irmã fútil do Horacinho. Quis saber o que ele queria comigo e ele me desarmou, dizendo que, primeiro, ver um sorriso no meu rosto lindo. Não resisti e sorri. Aí perguntei se é assim que ele seduz todas as garotas, aparecendo de repente no colégio onde elas estudam, fazendo parecer que foi uma coincidência e oferecendo carona para casa&#8230; Chegamos na minha casa e ele foi logo perguntando se poderia passar aqui à noite para me levar ao cinema. Disse que gostou de mim. Se eu dissesse não hoje, insistiria amanhã. Quem sabe um dia eu não me dava conta de que ele realmente está a fim de mim?Desci do carro e ele me acompanhou. Nos despedimos com um beijo no rosto. Antes de entrar, eu falei: “Semana que vem vai ter aniversário da minha prima, a Beth. Vou falar com o Horacinho pra te convidar”. Fera, então, me disse que no dia 21 será seu aniversário. Não vai ter festa, mas ele gostaria muito de comemorar comigo. Fiquei muito lisonjeada, mas acho que ele só falou isso para me seduzir. Acho melhor não arriscar.</em></p>
<p style="text-align:justify;"> <span id="more-108"></span></p>
<p style="text-align:justify;">Fera não passou seu aniversário com Isabela, mas deve ter comemorado bastante. A data, além de ser feriado nacional, caiu em um sábado com sol de rachar mamona. Vinte e quatro anos antes, no dia 21 de abril de 1960, Brasília era inaugurada. No Rio de Janeiro, nascia uma criança que, não por coincidência, recebeu o nome de Juscelino: era filho de um engenheiro que veio ajudar JK a construir a nova capital com uma atriz de teatro de revista que idolatrava o presidente da República. Juscelino Massafera Villaça nasceu para ser estrela. Pensem num cara que sempre foi admirado por todos aqueles que o rodeiam. Os amigos o idolatravam; as meninas o desejavam. Era muito bonito e possuía um carisma avassalador que o inocentava de todos os seus crimes e pecados. Não havia quem não se dobrasse aos seus apelos sedutores. Filho único, afilhado do presidente JK, era tratado como um príncipe. Na faculdade, até mesmo os professores se rendiam às suas argumentações furadas. E as garotas&#8230; essas já saíram literalmente no tapa para ter a honra de receber os seus tão famosos beijos. Era um mulherengo incorrigível, que já havia perdido a conta de quantas garotas já tinham passado pelas suas mãos. O pior é que, mesmo sabendo que o cara não levava ninguém a sério, a maioria queria experimentar. O próprio Fera chegou a narrar suas proezas em uma entrevista que daria, anos mais tarde, a uma revista especializada em música, em fevereiro de 1998. Vejamos alguns trechos mais interessantes da entrevista onde Fera falou pela primeira vez publicamente sobre o uso de drogas:</p>
<p style="text-align:justify;">“Naquela época, fera era o nome dado ao sujeito habilidoso em alguma coisa, sabe como é? Mas esse apelido que me caracteriza tão bem não era exatamente por causa disso. Eu só adquiri essa alcunha aos dezoito anos, quando servi o Exército &#8211; contra a minha vontade, é bom que fique claro. Naquela época, o que mais tinha era garoto da minha idade com o mesmo nome, Juscelino. Por isso, éramos tratados pelo sobrenome, no meu caso, Massafera. Engraçado é que, na escola, a galera me chamava de Massa, mas, no Exército, o que pegou mesmo foi o Soldado Fera. Acho que é porque eu estava me tornando um cara cada vez mais agressivo”</p>
<p style="text-align:justify;">“Desde pequeno, eu dava muito trabalho. Na escola, aquele garoto promissor que aprendeu a ler e escrever muito cedo não rendia como deveria. Passei de aluno aplicado e participativo ao mais malandro dos alunos. Como se não bastasse a decadência no aprendizado, as amizades com outros garotos problemáticos me levavam a cometer atrocidades dentro da escola, desde o desrespeito aos professores ao vandalismo. Usava drogas, as brigas eram freqüentes e até brincadeiras de mau gosto do tipo colocar bomba no banheiro. Minha mãe foi chamada várias vezes à escola para conversar com professores e direção. Em casa, no entanto, não conseguia impor nenhum tipo de castigo ou represália”</p>
<p style="text-align:justify;">“Eu praticava esportes desde a infância. Aos dez anos, entrei numa escolinha de basquete e já havia ganhado inúmeras medalhas em competições, inclusive fora de Brasília. A paixão pelo basquete, no entanto, não impediu o cigarro e o álcool de entrarem em minha vida. Na oitava série, fui pego fumando escondido no banheiro do colégio. Minha mãe foi chamada na escola e bem que tentou dar um sermão, mas, como ela fumava pra caralho, o episódio só serviu para eu assumir o vício e passar a fumar tanto em casa como na rua”</p>
<p style="text-align:justify;">“Aos quinze anos de idade, eu já estava trocando o dia pela noite. Saía na sexta-feira à noite e, às vezes, só retornava para casa no domingo de manhã. Já era fã do rock’n roll, deixei o cabelo crescer, coloquei brinco na orelha e fiz minha primeira tatuagem: um tigre nas costas. Nessa época, até que reuni uns amigos para montar uma banda de garagem. Já tocava e cantava bem, mas os ensaios da banda não passavam de pretexto pra gente fumar maconha&#8230;”</p>
<p style="text-align:justify;">“Aos dezesseis anos, eu já dirigia o carro que minha mãe ganhou do meu pai e quase nunca tirava da garagem. Pegava a chave em sua gaveta e saía sem que ela soubesse. A verdade somente veio à tona quando, sob o efeito de muito álcool, sofri um grave acidente no Eixo Monumental, lá em Brasília. O Fiat 147 ficou todo destruído, mas eu sofri apenas alguns arranhões. Ao saber do acidente, meu pai apareceu e deu uma bronca homérica na minha mãe pela irresponsabilidade de emprestar o carro ao filho menor de idade, etc. Na mesma ocasião, ele também soube que eu estava fumando e bebendo, digamos, feito gente grande. O velho somente bebia ocasionalmente e havia abolido o fumo de seus hábitos depois de uma ameaça de infarto”</p>
<p style="text-align:justify;">“Quando completei dezoito anos e tirei carteira de habilitação para dirigir, meu pai me deu um carro de presente. Era uma Brasília, branca, ano 74, acompanhada da promessa de uma troca por modelo melhor assim que eu terminasse o colégio e ingressasse numa faculdade. De olho no carro novo, resolvi dar um tempo e um pouco de paz pra minha família. As saídas noturnas diminuíram, passei a treinar mais o basquete e, na escola, meu rendimento aumentou consideravelmente, principalmente porque me matriculei em um cursinho pré-vestibular no turno da noite. Os resultados foram surpreendentes. Tentei o vestibular da UnB durante um ano e, quando vi que não daria para mim, entrei na faculdade de direito mais cara de Brasília. Orgulhoso pela minha transformação, o velho cumpriu o prometido: me deu um Gol novinho em folha, na época o top de linha”</p>
<p style="text-align:justify;">A entrada de Fera na faculdade, em 1980, acompanhada do carro novo, significou sua perdição total. As farras retornaram logo no primeiro semestre, trazendo à tona o uso indiscriminado de drogas, sexo a seu bel prazer e rock´n roll na veia. Não foram poucas as vezes que ele se envolveu em confusões sérias. As brigas em bares – com direito a pancadaria e destruição de mesas e garrafas – eram constantes. Por várias vezes, a mãe ia buscá-lo em delegacias ou em hospitais. Nessas horas, o pai dele era convocado para resolver a situação, que, na maioria das vezes, exigia seu dinheiro e sua influência para evitar o escândalo. Em setembro de 81, por exemplo, Fera agrediu um rapaz, em uma boate, com tanta violência que quase o matou. Em 1984, quando entrou em nossa vida, Fera parecia estar um pouco mais calmo. Tinha trocado o Gol antigo por um GTI 1.8, preto, e, embora ainda fosse um estudante relapso e fizesse uso esporádico de drogas, Fera havia encontrado uma causa a que se dedicar: a música. Um ano antes, no teatrinho da ABO, várias bandas de rock-punk se reuniram para um festival. Fera estava lá, curtindo aquela onda que surgia em Brasília. Foi aí que encontrou inspiração para – juntamente com os amigos Vina, Felipe, Tito e Daniel (todos filhos da classe média alta brasiliense)- formar o seu próprio grupo, a exemplo do que já havia acontecido com os quase desconhecidos Plebe Rude, Capital Inicial e Legião Urbana &#8211; três bandas de rock que haviam sobrevivido, crescido, aperfeiçoado o repertório e algumas já prestes a gravar o primeiro disco.</p>
<p style="text-align:justify;">“Foi nessa época, que conheci o Renato (Russo, vocalista da Legião Urbana). Ele me deu uma grande lição: ‘Não é preciso estudar 10 anos os conceitos musicais do poeta John Cage para se fazer rock. A gente não é músico. A gente está aprendendo música ao fazer música’. Em torno de Capital Inicial, Legião Urbana e Plebe Rude existia uma tribo com com um estilo próprio de cabelo e roupas nada convencionais. Éramos jovens revolucionários, filhos bastardos de Brasília, os filhos da revolução”, resumiu o Fera.</p>
<p style="text-align:justify;">(continua&#8230;)</p>
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			<media:title type="html">Patrick Selvatti</media:title>
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		<title>4</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Mar 2009 14:07:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>patrickselvatti</dc:creator>
				<category><![CDATA[Diretas Já, Coca cola e virgindade]]></category>

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		<description><![CDATA[Como o meu pai havia constatado, o comício realizado em São Paulo em janeiro desencadeou mais e mais manifestações pelas eleições presidenciais diretas. Belém (16 de fevereiro, 60 mil pessoas), passeata no Rio de Janeiro, no mesmo dia, com 60 mil pessoas, passeata em Recife (17 de fevereiro, com 12 mil pessoas), Manaus (18 de [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=patrickselvatti2.wordpress.com&amp;blog=4900067&amp;post=106&amp;subd=patrickselvatti2&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">Como o meu pai havia constatado, o comício realizado em São Paulo em janeiro desencadeou mais e mais manifestações pelas eleições presidenciais diretas. Belém (16 de fevereiro, 60 mil pessoas), passeata no Rio de Janeiro, no mesmo dia, com 60 mil pessoas, passeata em Recife (17 de fevereiro, com 12 mil pessoas), Manaus (18 de fevereiro, 6 mil pessoas), caminhada em Capão da Canoa, Rio Grande do Sul (19 de fevereiro, 50 mil pessoas), Osasco (19 de fevereiro, 25 mil pessoas), Rio Branco (19 de fevereiro, 7 mil pessoas), Cuiabá (20 de fevereiro, 15 mil pessoas), Belo Horizonte (24 de fevereiro, 300 mil pessoas), São Paulo (26 de fevereiro, manifestações em 300 municípios), Aracaju (26 de fevereiro, 30 mil pessoas), Juiz de Fora (29 de fevereiro, 30 mil pessoas), Anápolis (8 de março, 20 mil pessoas), nova passeata no Rio de Janeiro, da Candelária à Cinelândia (21 de março, com 200 mil pessoas), concerto sem discurso em Campinas com 20 mil pessoas, Uberlândia (23 de março, 40 mil pessoas), Campo Grande (24 de março, 40 mil pessoas), Londrina (02 de abril, 50 mil pessoas), Natal (06 de abril, 50 mil pessoas), Petrolina (07 de abril, 30 mil pessoas), Igreja da Candelária, Rio de Janeiro (10 de abril, 1 milhão de pessoas), Goiânia (12 de abril, 300 mil pessoas) e Porto Alegre (13 de abril, 200 mil pessoas).</p>
<p style="text-align:justify;"><span id="more-106"></span></p>
<p style="text-align:justify;">Na noite de 16 de abril de 1984, um novo comício pela campanha das eleições diretas para presidente da república foi realizado em São Paulo. Desta vez, a Praça da Sé, que recebeu em janeiro cerca de 300 mil pessoas, pareceu muito pequena para as milhares de pessoas que aderiram ao movimento nos últimos meses. Transferida para o Vale do Anhangabaú, a manifestação reuniu aproximadamente um milhão e meio de pessoas.</p>
<p style="text-align:justify;">No dia seguinte, recebi pelo telefone a notícia de que a professora Patrícia havia sido expulsa do colégio por ter ido ao comício em São Paulo. A direção do Colégio Duque de Caxias – cujo proprietário era um militar ferrenho – não perdoou o fato da professora de História ser radicalmente contra o militarismo. Inconformada, Solange decidiu liderar um movimento para anular a demissão de nossa professora mais querida. Em 84, Patrícia Resende era uma jovem professora, de apenas trinta anos. Muito querida pelos seus alunos, era mais do que professora; era nossa amiga.</p>
<p style="text-align:justify;">Entre outros alunos, Bethânia e eu aderimos ao movimento, que consistia em passar de sala colhendo assinaturas exigindo que nossa professora permanecesse no colégio. Apesar de conseguirmos mais de 60% da adesão dos estudantes do Duque de Caxias – a maioria assinou mais pela simpatia e pelo carisma da professora do que pelo ideal revolucionário em si -, não conseguimos evitar sua demissão. Pior: ainda ganhamos uma advertência da direção e uma bela bronca do meu pai.</p>
<p style="text-align:justify;">“Só queríamos impedir a demissão de uma boa professora”, a Beth argumentou.</p>
<p style="text-align:justify;">“Uma subversiva!”, gritava meu pai, furioso.</p>
<p style="text-align:justify;">“Subversiva por quê?”, quis saber Solange, enfrentando meu pai como eu nunca havia feito.</p>
<p style="text-align:justify;">“Envolvida em manifestação contrária aos militares. Defendendo ideais opostos ao da instituição onde trabalha. Não é esse o tipo de mestre que vocês devem ter! Garanto que seu pai também pensa como eu&#8230;”</p>
<p style="text-align:justify;">Solange se levantou, indignada. Não demonstrava nenhum medo de encarar meu pai. “Meu padrasto, coronel Raposo. Padrasto! Porque meu pai&#8230; Meu pai, o senhor deve saber muito bem, está morto. E foi morto por militares&#8230; Militares como o senhor, o marido da minha mãe e o dono do colégio!”</p>
<p style="text-align:justify;">O pai de Solange havia sido militante na revolução da década de 60. Foi perseguido, preso, torturado e morto sem nem ao mesmo receber o direito humanitário de ter seu corpo velado pela família e enterrado em jazigo. Nessa época, a mãe de Solange, Helena, já estava casada com o coronel Arnaldo Fonseca, militar da turma do meu pai. Solange carregava dentro de si uma raiva muito grande dos militares pelo que havia acontecido ao seu pai, era nacionalista ao extremo e estava disposta a tudo para lutar contra a ditadura. Não se rebaixava diante de nenhuma repressão e tenho a nítida certeza de que, se tivesse nascido vinte anos mais cedo, a essa altura teria tido o mesmo fim que o pai.</p>
<p style="text-align:justify;">A professora Patrícia ficou muito lisonjeada com nossa atitude. Parabenizou nossa iniciativa, agradeceu imensamente, mas declarou que não tinha esperança alguma de que a situação pudesse ser revertida. Por outro lado, também não estava chateada com sua demissão, pois agora estava livre para lutar pelos seus ideais. Foi isso que ela nos disse quando Solange, Beth e eu fomos visitá-la em seu apartamento.</p>
<p style="text-align:justify;">“Sei que é revoltante, mas eu já estou acostumada com isso. Mas vocês não deviam ter se envolvido nisso. Vocês poderiam ter sido prejudicados no colégio e é o último ano de vocês&#8230;”</p>
<p style="text-align:justify;">Francisco, o marido dela &#8211; um músico jovem, talentoso, gente boa, mas cheio de defeitos como todo ser humano – disse que foi realmente uma atitude imperdoável, mas lembrou que a repressão à sua esposa não foi nada perto do que muitos idealistas sofreram nos anos de chumbo. Aquela demissão havia sido mínima perto do que os militares mais rígidos fizeram no passado: prisões, torturas, mortes, exílio&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">No frigir dos ovos, o projeto das eleições diretas para presidente não foi aprovado no Congresso. No dia 25 de abril, a emenda das diretas foi votada. Tropas do exército ocuparam parte da Esplanada dos Ministérios e posicionaram-se também em frente ao Congresso Nacional. Oficialmente, estariam alí posicionados para proteger os prédios públicos de atos de desobediência civil. Para a oposição, estes dois fatos foram mecanismos intimidatórios aplicados pelo Governo Militar na tentativa de conter possíveis surpresas na votação.</p>
<p style="text-align:justify;">O resultado da votação: 298 votos a favor, 65 contra, 3 abstenções. Devido à uma manobra de políticos contra a redemocratização do País, não compareceram 112 deputados ao plenário no dia da votação. A emenda foi rejeitada por não alcançar o número mínimo de votos para a sua aprovação. Mas a guerra ainda não havia acabado. Vendo que o poder mudaria de mãos em pouco tempo, iniciou-se um período de mudança de partidos entre parlamentares e políticos em geral. Muitos que eram convictamente de situação, repentinamente iniciaram uma campanha ferrenha contra a ditadura militar, iniciando desta forma a dissidência política.</p>
<p style="text-align:justify;">Durante o mês de abril de 1984, o então presidente Figueiredo promoveu o conhecido Pacote de Abril, aumentando a censura sobre a imprensa e promovendo prisões e violência policial. Daquela tarde, ficou um grande ensinamento da professora Patrícia:</p>
<p style="text-align:justify;">“Não acho que a luta armada seja a melhor forma de revolução. Sou defensora da idéia de que violência gera violência. Para mim, revolução é mais que sair com armas nas mãos, assaltar bancos e seqüestrar embaixador estrangeiro. Revolução é mudança de atitude, é defesa de idéias&#8230; É lutar, sim, pelos direitos, mas de forma inteligente e madura. E é essa a lição que eu sempre fiz questão de passar aos meus alunos: nunca deixem que nada ou ninguém reprima seus sonhos ou violente suas dignidades. Sejam vocês mesmos e lutem de forma saudável por aquilo que acreditam”</p>
<p style="text-align:justify;">(continua&#8230;)</p>
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		<title>3</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Mar 2009 14:02:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>patrickselvatti</dc:creator>
				<category><![CDATA[Diretas Já, Coca cola e virgindade]]></category>

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		<description><![CDATA[Intervalo das aulas no Colégio Duque de Caxias, que ficava na Asa Norte, próximo à UnB, onde hoje funciona o Colégio Tancredo Neves. Muito movimento na cantina. Naquele dia, eu estava sentado em uma mesa com Isabela, Bethânia e Marisa, mas nem prestei atenção na conversa delas. Eu tentava pela enésima vez decifrar o código [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=patrickselvatti2.wordpress.com&amp;blog=4900067&amp;post=104&amp;subd=patrickselvatti2&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">Intervalo das aulas no Colégio Duque de Caxias, que ficava na Asa Norte, próximo à UnB, onde hoje funciona o Colégio Tancredo Neves. Muito movimento na cantina. Naquele dia, eu estava sentado em uma mesa com Isabela, Bethânia e Marisa, mas nem prestei atenção na conversa delas. Eu tentava pela enésima vez decifrar o código secreto de combinações do cubo mágico que eu sempre carregava na mochila. Mas minha atenção estava toda voltada para os movimentos de Hugo, que naquele tempo tinha os cabelos com corte surfista, compridos abaixo da orelha, lisos e com mexas loiras no estilo que o ator André di Biasi havia colocado em evidência no filme <em>Menino do Rio</em>.</p>
<p style="text-align:justify;"><span id="more-104"></span></p>
<p style="text-align:justify;">Hugo conversava animadamente em uma rodinha com seus então inseparáveis amigos, os gêmeos Caco e Cadu, e o Marcelo. Esses quatro, aliás, eram considerados os “maus elementos” da turma, os que mais conversavam durante as aulas e os que mais aprontavam travessuras do tipo queimar barbante cheiroso no fundo da sala e fazer corredor polonês com os colegas, por assim dizer, mais bobinhos, como eu e o japonês Takashi, o nerd da turma. Os gêmeos Caco e Cadu, entre outras coisas, costumavam fazer trocas de identidade para enganar as garotas e confundir os professores, já que eram idênticos. Apesar de o Caco ter mania de calçar o tênis como sandália – deixando a parte de trás dobrada com o calcanhar para fora -, a única coisa que realmente os diferenciava na época do colégio era um detalhe que passava desapercebido: uma pequena marca de catapora que o Cadu tinha no canto do olho esquerdo. Naquele dia, Hugo falava alto e gesticulando, prendendo a atenção dos seus ouvintes. Tinha na mão uma exemplar da revista Placar.</p>
<p style="text-align:justify;">“Apesar de não termos levado o título na última Copa, a seleção do Telê Santana foi boa, sim. Não é qualquer time que leva para uma Copa do Mundo craques como Zico, Cerezo, Falcão e Sócrates no meio-campo. Quatro a um contra Escócia e quatro a zero na Nova Zelândia. O azar foi cruzar com o Paolo Rossi nas quartas-de-final&#8230;”</p>
<p style="text-align:justify;">Hugo referia-se à Copa de Mundo de 1982, quando a Seleção Brasileira de Futebol teve sua melhor atuação na década de 80, perdendo para a Itália nas quartas-de-finais. Vale lembrar que as campanhas de 1986 e 1990 também foram horríveis, vocês sabem. Somente em 1994 nosso sonho do tetracampeonato se tornou realidade quando o italiano Roberto Baggio errou o pênalti que nos deu a vitória.</p>
<p style="text-align:justify;">Mas o assunto futebol logo deu espaço para outro tema que tanto fascinava Hugo e seu grupinho: mulheres. Hugo estava interessado na nova aluna da nossa turma, que viera transferida de outra cidade acompanhando os pais. Era mineira de Uberlândia, morava no Colina, conjunto de prédios residenciais reservados a professores e funcionários da UnB dentro do próprio campus da universidade, no final da Asa Norte. O Colina hoje é muito conhecido porque foi lá que começaram a surgir as principais bandas de rock brasilienses, como o Aborto Elétrico (que mais tarde se dividiu em Capital Inicial e Legião Urbana) e Plebe Rude. O nome da garota em questão era Érika. Uma típica patricinha esnobe, que adorava usar roupa cor-de-rosa e óculos de armações diversificadas, no maior estilo Penélope Charmosa. Era prima da Renata, colega mais antiga, garota que estava ficando com o Caco. As duas tinham acabado de chegar na cantina.</p>
<p style="text-align:justify;">“Mor gatinha, cara&#8230; Tou doido pra jogar um xaveco nela”, avisou o Hugo.</p>
<p style="text-align:justify;">“Então já tá no papo”, sentenciou Marcelo. “Tu fica com quem quer dentro desse colégio. Nunca vi uma que tu azarasse que te desse um corte. Não à toa, as meninas te chamam de Hugostoso&#8230;”</p>
<p style="text-align:justify;">“Falou o baba egg!”, retrucou Cadu, que na chamada atendia pelo nome Carlos Eduardo.</p>
<p style="text-align:justify;">“Vou encontrar com minha gata antes que eu enjoe e vomite com tanta babação de ovo&#8230;”, avisou o Caco, o Carlos Eustáquio.</p>
<p style="text-align:justify;">“Vem comigo, irmão”</p>
<p style="text-align:justify;">“Pensei que você ainda estivesse ficando com a Bethânia”, observou Marcelo, logo que Caco e Cadu sairam.</p>
<p style="text-align:justify;">“Qual é, rapá! Meu lance com a Beth é coisa do passado, mermão! Marcelinho, se tu quer ser um garanhão como eu, aprende uma coisa: figurinha repetida não completa álbum&#8230;”</p>
<p style="text-align:justify;">“Pô, cara, uma loirinha gata&#8230; Se você não quer mais, acho que vou investir”</p>
<p style="text-align:justify;">“Vai fundo. Já abri o caminho, agora é só entrar&#8230;”, ele falou, com muita malícia. Da mesa onde estávamos, Bethânia também avistou Érika. As duas se cumprimentaram.</p>
<p style="text-align:justify;">“De onde você conhece essa garota?”, quis saber Isabela.</p>
<p style="text-align:justify;">“Somos colegas do jazz”, contou Beth, levantando-se para ir ao encontro da nova amiga.</p>
<p style="text-align:justify;">“Só a Beth mesmo para se dar com uma patricinha esnobe dessas&#8230;”, reclamou Isabela, meio enciumada.</p>
<p style="text-align:justify;">E eu continuei observando o Hugo. Morria de vontade de falar com ele, quebrar o gelo que já durava mais de dois anos. Alguns dias depois, criei coragem e fui abordá-lo. Foi no fim da aula. Os alunos se levantaram e saíam apressados. A professora Patrícia, de História, cuja participação nessa história será bastante importante, estava arrumando seus pertences quando a Solange foi falar com ela. Eu disse a Isabela que ela deveria ir para casa sozinha, pois eu queria aproveitar que o papai não viria nos buscar para passar numa loja antes de ir para casa. Eu estava querendo muito comprar o disco do Milton Nascimento que tinha Coração de Estudante e a Isabela concordou em ir de ônibus com a Marisa. Nesse instante, passei pelo Hugo, que, para variar, estava saindo com os gêmeos.</p>
<p style="text-align:justify;">“Sou fã da Isabel. Jogar vôlei com barrigão de seis meses não é pra qualquer uma!”, observou Cadu.</p>
<p style="text-align:justify;">“Boa mesmo, pra mim, é a Vera Mossa. Em todos os sentidos”, retrucou o Caco.</p>
<p style="text-align:justify;">“Essa é levantadora mesmo! Já me fez levantar várias vezes&#8230;”</p>
<p style="text-align:justify;">Mal terminou de dizer essa frase e Hugo me ouviu chamá-lo e se virou, surpreso, interrompendo sua gargalhada. Eu, quase gaguejando, disse que queria falar com ele e ele, seco, soltou um “pode falar”</p>
<p style="text-align:justify;">“Bem, eu&#8230; eu queria saber se posso te ligar mais tarde. Sei lá, faz tanto tempo que a gente não conversa&#8230;”</p>
<p style="text-align:justify;">“Poder ligar tu até pode. Mas acho que não vai me achar em casa. À tarde vou sair com a galera pra jogar futebol e, à noite, devo me encontrar com uma gatinha que tá me dando a maior bola&#8230; Sabe como é, né, futebol e gatinhas são meu fraco. Ou meu forte, sei lá”</p>
<p style="text-align:justify;"> Sem a menor cerimônia, Hugo se afastou e foi ao encontro dos amigos, para minha tristeza. Lembro que senti vontade de chorar. Lembrei-me da música do Gonzaguinha, cantada pelo Fagner, Guerreiro Menino, aquele que diz que um homem não chora, a frase que eu mais ouvia do meu pai. Então, me segurei. Na verdade, quem me segurou foi a Solange, que veio ao meu encontro, toda animada.</p>
<p style="text-align:justify;">“Gabriel, você nem imagina! Tava conversando com a professora Patrícia&#8230; Sabia que ela é radicalmente contra o regime militar? Teve mais um comício, em São Paulo, pelas eleições diretas e ela foi! Não é fantástico? Já gostava dela como professora. Agora sou fã como ser humano!”</p>
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			<media:title type="html">Patrick Selvatti</media:title>
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		<pubDate>Sat, 28 Mar 2009 17:41:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>patrickselvatti</dc:creator>
				<category><![CDATA[Diretas Já, Coca cola e virgindade]]></category>
		<category><![CDATA[Bonnie Tyler]]></category>
		<category><![CDATA[Ceub]]></category>
		<category><![CDATA[chicletes Ping Pong]]></category>
		<category><![CDATA[Copa do Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[diário de adolescente]]></category>
		<category><![CDATA[figurinhas Amar é]]></category>
		<category><![CDATA[Flashdance]]></category>
		<category><![CDATA[ginásio coberto]]></category>
		<category><![CDATA[rock anos 80]]></category>
		<category><![CDATA[Total eclipse of the heart]]></category>

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		<description><![CDATA[Brasília, 5 de fevereiro de 1984 Querido diário, Hoje começou o meu último ano no colégio. Ano que vem, se Deus quiser, estarei na faculdade. Infelizmente, o dia começou com uma discussão chata envolvendo meu pai e meu irmão. Papai não aceita a idéia do meu irmão estudar teatro e insiste na idéia de que [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=patrickselvatti2.wordpress.com&amp;blog=4900067&amp;post=100&amp;subd=patrickselvatti2&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><em>Brasília, 5 de fevereiro de 1984 </em></p>
<p style="text-align:justify;"><em>Querido diário, Hoje começou o meu último ano no colégio. Ano que vem, se Deus quiser, estarei na faculdade. Infelizmente, o dia começou com uma discussão chata envolvendo meu pai e meu irmão. Papai não aceita a idéia do meu irmão estudar teatro e insiste na idéia de que ele faça faculdade de direito. Para me deixar ainda mais nervosa, Gabriel não reage. Aceita a imposição do papai de cabeça baixa, com medo de lutar por aquilo que acredita. Ah, eu não sou assim, não. Desde pequena, sempre impus minha vontade, meus desejos. Fico indignada com a passividade do meu irmão diante do papai. Queria que ele defendesse suas idéias, impusesse sua vontade, mas ele acha que nunca vamos conseguir vencer o machismo do nosso pai. Queria ver se fosse comigo. Adoro o papai, mas jamais abriria mão de algo em que acredito só porque ele não aprova. Ah, mas não mesmo! Gabriel veio me dizer que eu também desisti de ser cantora de rock porque o papai não queria, mas não é verdade. Comigo foi diferente. Eu me desencantei com essa história de cantar e optei por fazer psicologia porque me encantei pela profissão. Em compensação, desde sempre só me interesso por garotos que curtem rock. Se tiverem cabelos compridos, melhor ainda&#8230; Gabriel diz não entender como eu consigo me sentir atraída por esses caras. Minhas melhores amigas, a Bethânia e a Marisa, também concordam com ele. O problema é que elas só gostam de mauricinho. Marisa, por exemplo, tem minha idade e já namora há quase dois anos um garoto chamado Horácio, o Horacinho, estudante de direito, filho de um juiz, um perfeito almofadinha, que usa óculos de grau, cabelo engomado e roupa social. Já a Beth é diferente de nós duas: o lance dela é homem mais velho, seja como for. Ela é a mais avançadinha de nós três e a única que não é mais virgem. Já eu assumo: gosto mesmo de garoto com visual de roqueiro. Cabelo comprido, tatuagem, brinquinho na orelha e roupa preta me deixam louquinha! Mas não concordo quando dizem que esse tipo de garoto não é bonito. Garanti a elas que ainda teria um namorado lindo de morrer, que as deixaria com muita inveja.</em></p>
<p style="text-align:justify;">Como toda adolescente romântica e sonhadora, Isabela (Bela para o papai), dos 13 aos 25 anos, escreveu páginas e mais páginas de diário, o qual, muito gentilmente, ela me cedeu o acesso e publicação de alguns pontos mais importantes. Naquele ano de 1984, a partir de quando eu comecei a lê-los, os diários da minha irmã não eram mais tão inocentes, mas ainda eram decorados com figurinhas, especialmente de “Amar é&#8230;”, aqueles com o desenho de um casalzinho pelado. Eu também tive a minha fase de colecionar figurinhas. Ainda guardo como relíquia o meu álbum de figurinhas de Copa do Mundo que vinham nas embalagens do chiclete Ping Pong.</p>
<p style="text-align:justify;"><span id="more-100"></span></p>
<p style="text-align:justify;">Aquele começo de ano letivo havia sido muito ruim para mim. Primeiro, meu pai começou a manhã frisando que jamais iria aceitar que eu fosse ator. Depois, ouvi um sermão da minha própria irmã e da minha melhor amiga, Solange, ambas insistindo que eu deveria enfrentar meu pai e impor minha vontade. Para completar, ainda tive que suportar o desprezo daquele que eu sempre tive como melhor amigo, o Hugo, que estudava comigo desde a infância, vivia fazendo tudo comigo e compartilhava o meu sonho de fazer teatro. Ele dizia que um dia seria galã de novela, famoso, e, de uns tempos para trás, sem muita explicação, Hugo havia se afastado de mim para se juntar com um grupinho de garotos que só falavam sobre futebol e conquistas sexuais.</p>
<p style="text-align:justify;">Mais tarde, contarei a vocês quem é Hugo e a importância dele na minha vida. Agora vamos saber como teve início a história que eu intitulei “A Bela e o Fera”.</p>
<p style="text-align:justify;"><em>Brasília, 2 de março de 1984 </em></p>
<p style="text-align:justify;"><em>Hoje à noite eu vou a uma festa lá na faculdade onde estuda o namorado da Marisa. Nossa, por falar nisso, nunca pensei que o Horacinho fosse tão preconceituoso. Acredita que ele ficou espantado de nós termos um professor negro? Logo o professor Danilo, de Matemática, tão competente e gente boa&#8230; Credo, a Lei Áurea já foi assinada há quase cem anos e ainda tem gente que acha que negro não é gente como a gente. Bom, hoje é noite de trote no Ceub e vai ter um show de rock com bandas formadas por estudantes. Para eu poder ir, o Gabriel vai ter que me acompanhar, senão papai não deixa. Ele relutou um pouco, mas acabou cedendo. Graças a Deus. Alguma coisa me diz que esta noite minha vida vai mudar.</em></p>
<p style="text-align:justify;"> </p>
<p style="text-align:justify;">Como Isabela bem falou aí no diário, eu não estava nem um pouco a fim de ir a festa alguma. A verdade é que tínhamos um pacto: como papai sempre exigia que saíssemos juntos, nós sempre abríamos mão dos nossos gostos próprios para ajudar um ao outro a curtir um programa. Naquela noite, foi minha vez de ceder. Mesmo contrariado, fui ao show com Isabela.</p>
<p style="text-align:justify;">O cenário era um enorme galpão, um ginásio coberto da faculdade. Meia luz, música alta, aquela fumaça de cigarro, muitos jovens entre 18 e 25 anos, bebendo, dançando, paquerando, divertindo. No palco, uma banda qualquer se apresentava quando Isabela e eu chegamos, acompanhados de nossa prima Bethânia, de Marisa e seu namorado. Horacinho era filho de um importante juiz de direito da cidade, Dr. Horácio Menezes de Alcântara e Silva. Tinha 21 anos, estava no terceiro ano do curso de direito e sempre foi um perfeito mauricinho, desses bem almofadinhas, muito comuns naquela época em que Brasília era habitada praticamente pela alta burguesia. Era magro, alto, pouco atlético; embora jogasse tênis no Iate Clube, fazia mais o estilo intelectual, usando óculos de grau, roupinha social e cabelo repartido, de lado, engomado com muito gel.</p>
<p style="text-align:justify;">Algum tempo depois, uma grande gritaria. Meninas em polvorosa por causa da banda que iria subir ao palco.</p>
<p style="text-align:justify;">“Nossa, vai ter show dos Rolling Stones aqui, é?”, eu quis saber.</p>
<p style="text-align:justify;">“Que nada”, falou Horacinho. “Acontece que a mulherada adora o vocalista da banda. O cara faz o maior sucesso entre as garotas daqui”</p>
<p style="text-align:justify;"> “E quem é esse fenômeno?”, quis saber Isabela.</p>
<p style="text-align:justify;">“O nome dele é Fera”</p>
<p style="text-align:justify;"> </p>
<p style="text-align:justify;"><em>Brasília, 3 de março de 1984 </em></p>
<p style="text-align:justify;"><em>Querido diário, Ontem eu não falei que minha vida iria mudar? Pois eu estava certa. Estou apaixonada! Conheci ontem à noite, no show, o homem da minha vida. É o vocalista da banda Feras do Cerrado, o nome dele é Fera. Assim que a banda surgiu no palco, fixei os olhos entre os componentes da banda e ele estava lá, lindo, roqueiro, cabelo comprido até o ombro, tatuagem no braço, brinco de argola na orelha esquerda, lindo! Do jeito que eu gosto. Como se não bastassem os atributos físicos, ele ainda canta divinamente. Quase não acreditei quando ele iniciou os acordes de uma canção que eu amo. Total eclipse of the heart, da Bonnie Tyler. Mal pude acreditar! Parecia um sonho. Um sonho lindo, porque, de repente, inexplicavelmente, ele fixou os olhos na minha direção e começou a cantar como se fosse para mim. Fixei o olhar para o palco e meus olhos estavam presos ao rosto de Fera. Em determinado momento, nossos olhares se encontraram, como por mágica. Marisa também percebeu, mas eu não podia acreditar que poderia ser verdade. Eu disse que adoraria conhecê-lo e o Horacinho veio tentando cortar meu barato, dizendo que se tratava de um grande galinha, que já ficou com a maioria das garotas da faculdade. Disse que a irmã dele, a Olívia, já ficou com ele. Mesmo assim, eu estava decidida: queria conhece-lo. Horacinho, então, disse que me apresentaria ao meu amado. Gabriel e Marisa vieram conosco; a Beth, àquela altura, já estava aos beijos com um universitário. Fomos, então, até a lateral do palco, onde estavam os integrantes da banda, uns sentados, outros de pé, rindo e conversando amenidades. Fera estava lá, de pé, sem camisa, os cabelos soltos, molhados de suor, que escorria por seu rosto. Bebia água mineral de uma garrafinha e deixava que a água escorresse por seu peito para se refrescar. Horacinho o cumprimentou, parece que são chegados mesmo. Em determinado momento, fez as devidas apresentações. Fera nos cumprimentou com um beijo no rosto. Primeiro, Marisa, depois, a mim. Na minha vez, parou e ficou me olhando com curiosidade, até me dizer que me viu de cima do palco, que eu estava cantando uma música de um jeito bem gostoso de ver que chamou sua atenção. Eu disse que a música em questão era linda e ele disse: “Linda como você”. Mal pude me conter em pé. Estava emocionada, lisonjeada, constrangida. Nós sorrimos e eu juro que pintou um clima romântico. Clima esse que se desfez com a chegada inesperada de uma garota que se colocou impulsivamente entre mim e Fera, dando-lhe um inesperado e caloroso beijo na boca. Pior foi constatar que a garota é ninguém menos que a Olívia, irmã do Horacinho. Pelo visto, cheguei tarde. Mas eu me encantei por ele. Imaginei que seria um príncipe encantado, mas também não é nenhum sapo. Afinal, ele não tem culpa de ter uma namorada. Olívia é linda, morena, manequim, desfila e tudo. E bem avançadinha&#8230; do jeito que todo homem gosta. Beth disse que eu não sou páreo para ela, já que não passo de uma colegial virgem e quadrada, que quase não beijo ninguém e nem penso em perder a virgindade tão cedo. Argumentei que eu me preservo e não posso ser considerada quadrada só porque sou virgem. Beth insiste que a revolução sexual já aconteceu há duas décadas e ninguém mais casa virgem desde a época da nossa mãe&#8230; Mas minha mãe casou virgem, não era avançadinha como a mãe dela, que teve dois filhos sem ao menos se casar! E ela quer que eu perca a virgindade como? Nem namorado eu tenho. Marisa, que já namora há dois anos, diz não ver razão para esperar até o casamento, vai ficar noiva do Horacinho no final do ano e perder a virgindade assim que tiver com a aliança na mão direita&#8230; Já a Bethânia acha bobagem esperar noivado também. Assim que ela encontrou o cara que deu aquele tchan, resolveu esse “problema”. Não adiantou nada, já que, como ela mesmo afirmou, sua primeira vez foi horrível. Lá no colégio, todo mundo sabe que ela perdeu a virgindade com o Hugo, que é um perfeito troglodita, um moleque sem o menor jeito para a coisa. Só tem músculo e fama! Eu acho a Beth louca e inconseqüente! Entregar a virgindade a um cara que nem seu namorado era&#8230; Mas ela diz que a única certeza que ela tinha era de que não queria chegar virgem aos dezoito anos. Disse que, a partir de agora, só transa com homem de verdade, mais velho, experiente&#8230; Aliás, ela nos contou que tá caidinha por um professor lá da academia de dança, que deve ter uns 28 anos e, segundo ela, é um pão. Cê sabe, né, a Beth, depois que assistiu ao filme Flashdance, pensa que é a mocinha do filme, até rasgou o moletom para ficar com os ombros de fora igual à ela. Moderníssima!</em></p>
<p style="text-align:justify;">(continua&#8230;)</p>
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		<pubDate>Sat, 28 Mar 2009 00:57:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>patrickselvatti</dc:creator>
				<category><![CDATA[Diretas Já, Coca cola e virgindade]]></category>
		<category><![CDATA[diretas já]]></category>
		<category><![CDATA[lago norte]]></category>
		<category><![CDATA[ultraje a rigor]]></category>

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		<description><![CDATA[A nossa história começa em 1984, exatamente no dia 25 de janeiro, uma quinta-feira, data marcada na História do Brasil pelos 430 anos da cidade de São Paulo e pelo comício realizado na capital paulista fortalecendo o movimento pela volta das eleições diretas para presidente da República. Em pleno vigor do regime militar, o governador [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=patrickselvatti2.wordpress.com&amp;blog=4900067&amp;post=91&amp;subd=patrickselvatti2&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">A nossa história começa em 1984, exatamente no dia 25 de janeiro, uma quinta-feira, data marcada na História do Brasil pelos 430 anos da cidade de São Paulo e pelo comício realizado na capital paulista fortalecendo o movimento pela volta das eleições diretas para presidente da República. Em pleno vigor do regime militar, o governador do Estado de São Paulo, André Franco Montoro, havia organizado um grande comício, com partidos de oposição, líderes sindicais, artistas e estudantes, reunidos para defender a campanha por eleições diretas para presidente.</p>
<p style="text-align:justify;"><span id="more-91"></span><br />
 Não era o primeiro movimento, mas sem dúvida foi o maior. O primeiro havia acontecido em Pernambuco em março do ano anterior e teve um também em Goiânia algum tempo depois. São Paulo também já havia sediado uma manifestação pública no final do ano. Em janeiro daquele ano, Olinda, Curitiba, Salvador, Vitória e Campinas realizaram manifestações. Nada que se comparasse ao contingente daquele dia 25, onde cerca de 300 mil pessoas compareceram à Praça da Sé, no centro da cidade, onde se ecoava o grito uníssono: “Diretas Já!” Segundo o governador paulista, ali estavam presentes as esperanças de 130 milhões de brasileiros.<br />
 Naquele início de 1984, Isabela e eu tínhamos acabado de completar 17 anos e passamos as férias de janeiro em São Paulo, na casa de nossa avó paterna. As férias foram ótimas. Muitos passeios, idas ao cinema, brincadeiras de rua e até uma esticada em Guarujá no último fim de semana. Minha irmã implicava um pouco comigo, me chamando de criança por não desgrudar do videogame Atari, dos gibis e dos álbuns de figurinhas juntamente com meus primos menores, mas também agia como uma menininha boba brincando de elástico com as primas ou de salada mista com os garotos da rua (foi assim, aliás, que deu seu primeiro beijo, o que nosso pai não podia nem sonhar).<br />
 Papai e Mamãe foram nos esperar no aeroporto. Era a primeira vez que viajávamos, sozinhos, de avião e eles estavam bem preocupados. Para piorar, o vôo atrasou, por causa da forte chuva e do grande movimento que estava no centro de São Paulo. Meu pai, militar, reacionário ao extremo, achava que qualquer manifestação daquela natureza não daria em nada.<br />
 “O governo militar já avisou que não vai deixar barato. Logo essa palhaçada chega ao fim e tudo continua como está”, ele garantiu.<br />
 Mamãe estava preocupada.<br />
 “Deus do céu! Que bom que vocês vieram embora&#8230; Já vi esse filme nos anos 60 e não foi nada agradável”<br />
 “Acho que dessa vez o regime militar não resistirá, papai”, eu insisti. “Tem muita gente graúda brigando por essa causa. Parece que muitos artistas consagrados integraram ao movimento. Fernanda Montenegro, Milton Nascimento, Chico Buarque&#8230;”<br />
 “Uma corja de subversivos. Desde que os militares tomaram o poder, esses transviados que se dizem artistas levantam bandeira contra o sistema. Não à toa, muitos foram exilados.”<br />
 “Nossa, papai”, interveio Isabela, “o senhor tem uma visão muito retrógrada a respeito de arte”<br />
 “Sei o que estou dizendo, minha filha. Essa galera que levanta a bandeira da paz e do amor quer transformar nosso país numa grande bagunça. Paz para eles é droga e amor&#8230; amor é fazer sexo com todo mundo”<br />
 “Para o senhor, atriz é prostituta, ator é viado e roqueiro é drogado”<br />
 “Olha o palavreado, menina!”, ralhou o papai, bravo.<br />
 “Tremo só de ouvir falar nessas manifestações”, observou mamãe, sempre temerosa. “Vivo o regime militar desde o início. Presenciei muita manifestação como essa acabar em pancadaria e quebradeira”<br />
 “Também muita tortura e morte”, reagi, indignado. “E essa violência acontecia por parte dos militares. Os revolucionários apenas lutavam pelo direito de expor suas idéias”<br />
 “Revolucionários! Você acha bonita essa palavra, Gabriel? Revolução?”<br />
 “Acho louvável quando um grupo de pessoas se mobiliza para lutar por um ideal. A isso eu chamo de revolução pela democracia. Em 64, os militares se uniram contra o presidente João Goulart. Eles tomaram o poder contra a vontade do povo. A isso eu chamo de revolução violenta”.</p>
<p style="text-align:justify;">Em 1984, o Lago Norte ainda era um bairro pouco habitado em Brasília. Em uma das pequenas mansões existentes à beira do Lago Paranoá, anossa família residia: uma bela casa sem nenhum cercado, com jardim verde na frente, a garagem aberta e, aos fundos, uma bela vista da capital.<br />
 Na primeira segunda-feira de fevereiro, Isabela e eu levantamos bem cedo para nosso primeiro dia de aula. Papai estava sentado na cabeceira da mesa quadrada, lendo o jornal do dia. Mamãe estava sentada à direita do marido, enquanto a empregada, Joana, servia o casal. Isabela e eu chegamos, rindo, ambos trajando uniforme do colégio. Como sempre, minha irmã cumprimentou nosso pai com um beijo na face e depois fez o mesmo com a mãe. Eu cumprimentei somente a mamãe com um beijo. Dona Ester estava preocupadíssima que nós perdêssemos o horário, mas nós garantimos que, mais que ninguém, estávamos ansiosos para chegar ao colégio. Afinal, era o início do último ano no colégio, queríamos aproveitar cada instante.<br />
 “Esse ano não será nada fácil. Vocês terão que estudar dobrado para o vestibular”<br />
 “E estudaremos, mamãe”, garantiu Isabela. “Afinal, entrar na UnB não será moleza”<br />
 “Vocês são os melhores alunos do colégio. Seus professores já disseram que passariam na primeira tentativa”<br />
 Sem muito entusiasmo, eu disse que entraria na faculdade de direito, como era a vontade do meu pai. Isabela afirmou que entraria de primeira no curso de psicologia. Achando divertido, mamãe lembrou que, quando criança, Isabela dizia que seria cantora de rock. Comentou com papai, mas ele estava entretido na leitura do jornal do dia. Em determinado momento, ele jogou o jornal sobre a mesa, furioso.<br />
 “Mais essa agora!”<br />
 “O que foi, Jorge?”, quis saber mamãe.<br />
 “Como se não bastasse aquela palhaçada no aniversário de São Paulo, agora os comícios pelas eleições diretas estão se espalhando pelas demais capitais do País. Olinda, no dia 27 de janeiro, recebeu 30 mil pessoas e em Maceió, no dia 29, foram cerca de 20 mil pessoas”<br />
 Minutos depois, estávamos os três dentro do carro, um Monza que o papai havia comprado assim que foi lançado, dois anos antes, finalmente trocando aquela inesquecível Belina cor de abóbora. Papai dirigia pelas ruas de Brasília, fumando um cigarro. O rádio estava ligado, Agepê cantava Deixa eu te amar. Sentada na frente, como sempre fazia, Isabela mudou a freqüência e parou em uma estação que tocava Inútil, do Ultraje a Rigor, que mais tarde se tornaria um dos temas da campanha pelas eleições diretas. Papai logo ralhou.<br />
 “Não acho bonito uma moça como você gostar de rock”<br />
 “Devia ficar feliz por eu ter desistido de ser cantora. Eu sempre gostei de música. Desde criança”<br />
 “Eu sei. Tanto que te matriculei na Escola de Música na esperança de que aprendesse a tocar piano. Mas você só se interessava pelos instrumentos de corda. E agora o que você mais gosta de ouvir é banda de rock. Um bando de drogados que acham que fazem arte com essa barulheira toda”<br />
 “Música é uma forma de expressão, pai. E toda forma de expressão da arte é expressão da cultura”, intervim, timidamente.<br />
 “Lá vem você com essa conversa de arte. Gabriel, quantas vezes já disse que não quero ver você metido nessas coisas?”<br />
 Minha irmã quis saber: “O que o senhor tem contra arte, papai?”<br />
 “Contra arte? Nada. Tenho muita coisa contra o seu irmão envolvido nisso. Essa coisa de arte não é para macho”<br />
 “Que bobagem, pai! Para gostar de arte não há sexo definido”<br />
 “É exatamente aí que reside o problema. Artista não tem sexo definido. A maioria é boiola. Homens e mulheres se prostituindo em nome da arte. São todos uns subversivos. Não quero nenhum de vocês envolvido com essa gente que vive à base de sexo, drogas e rock n roll. Essa galera do amor livre que surgiu na década passada não é nada saudável”<br />
 “O senhor fala isso porque é militar e tem raiva daqueles que, nos anos 60, manifestaram sua indignação contra a ditadura. Poetas como Caetano Veloso e Chico Buarque foram perseguidos por causa de sua arte”, argumentei.<br />
 “Por causa de suas idéias revolucionárias. Graças a idealistas como eles hoje o País está se afundando num caos. Essa modernidade toda que está se consolidando nesse início dos anos 80 vai corromper a sociedade. E eu não quero conversar sobre isso com vocês”<br />
 “Somos, então, proibidos de pensar, de ter vontade própria?”, deduziu Isabela.<br />
 “Quem disse isso? Você, por exemplo, desistiu de ser cantora de rock porque quis”<br />
 “Desisti porque quero ser psicóloga. Mas, se eu insistisse nisso, o senhor não permitiria. Assim como proibiu o Gabriel de fazer artes cênicas”<br />
 “Seu irmão ingressará na faculdade de direito e não se fala mais nisso”<br />
 “Acontece que não ele tem talento para lidar com leis e seu maior sonho é ser ator. Não é, Gabriel?”<br />
 Gaguejei qualquer coisa, mas meu pai foi logo me cortando.<br />
 “Arte não é coisa para homem, Isabela. Seu irmão já deveria ter entendido que arte de homem é jogar futebol e satisfazer as mulheres. Mas ele gosta de jogar bola? Me diz? Não! Sempre preferiu ficar em casa em vez de ir pra rua brincar com outros garotos”<br />
 “Não gosto dessa bobagem de ficar correndo atrás de uma bola. Prefiro ficar estudando”<br />
 “Ou vendo novela e ajudando sua mãe na cozinha”<br />
 “Mas não se preocupe, pai. Vou estudar o ano inteiro para ingressar na faculdade de direito e vou ser motivo de orgulho para o senhor”<br />
 “Acho bom que esqueça essa bobagem de teatro. Prefiro ver meu filho morto a saber que está envolvido em coisa de viado. Caso contrário, vai ter que servir o Exército pra aprender a virar homem!”.<br />
 “Inútil! A gente somos inútil! A gente não sabemos escolher presidente, não sabemos tomar conta da gente, não sabemos nem escovar os dente&#8230;.“</p>
<p style="text-align:justify;">(continua)</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/patrickselvatti2.wordpress.com/91/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/patrickselvatti2.wordpress.com/91/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/patrickselvatti2.wordpress.com/91/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/patrickselvatti2.wordpress.com/91/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/patrickselvatti2.wordpress.com/91/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/patrickselvatti2.wordpress.com/91/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/patrickselvatti2.wordpress.com/91/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/patrickselvatti2.wordpress.com/91/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/patrickselvatti2.wordpress.com/91/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/patrickselvatti2.wordpress.com/91/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/patrickselvatti2.wordpress.com/91/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/patrickselvatti2.wordpress.com/91/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/patrickselvatti2.wordpress.com/91/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/patrickselvatti2.wordpress.com/91/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=patrickselvatti2.wordpress.com&amp;blog=4900067&amp;post=91&amp;subd=patrickselvatti2&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Prólogo</title>
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		<pubDate>Sat, 28 Mar 2009 00:45:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>patrickselvatti</dc:creator>
				<category><![CDATA[Introdução]]></category>
		<category><![CDATA[anos 80]]></category>
		<category><![CDATA[Brasília]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">Uma década qualquer, uma época que deve ser esquecida. Um tempo perdido. Assim alguns definem os anos 80, que tiveram início com um Brasil que ainda sofria as conseqüências do golpe militar de 64. A crise econômica e as dificuldades do militarismo agravaram-se no final da década anterior, quando, para conseguir o apoio da sociedade, o então presidente Ernesto Geisel anunciou uma “distensão lenta, gradual e segura” do regime autoritário em direção à democracia. Entretanto, prisões de líderes sindicais da região do ABC Paulista e atentados terroristas no Rio de Janeiro revelavam as grandes dificuldades da chamada abertura política, já no governo João Figueiredo. Ao mesmo tempo, começava a se formar um movimento no Congresso Nacional em favor da aprovação da emenda constitucional que restabelecia a eleição direta para a Presidência da República. A campanha das Diretas Já se espalhava em grandes comícios, passeatas e manifestações por todo o País.</p>
<p style="text-align:justify;">Mas Brasília, mesmo sendo o centro dessa discussão, não se resumia apenas às questões políticas. Aliás, engana-se quem pensa que a capital federal é um local habitado apenas por políticos, diplomatas e funcionários públicos. Brasília é uma cidade marcada pelo sonho e, principalmente, pela ousadia. Milhares de pessoas comuns, cidadãos brasileiros, desembarcaram na cidade em busca de uma vida melhor. Além dos candangos que ergueram a nova cidade, gente de todo o tipo queria encontrar na nova capital do País uma alternativa de vida, enquanto outros que fixaram residência por imposição passaram a captar na cidade algo que justificasse a sua existência. Essas pessoas, marcadas pela diversidade cultural e social, fizeram de Brasília uma cidade com vida própria, que podia até depender do fator político-administrativo, mas que, aos poucos, foi se tornando independente. Nesta cidade, a década de 80 significou também uma grande transformação cultural que alcançou todos os cantos do Brasil e algumas partes do mundo.</p>
<p style="text-align:justify;"><span id="more-88"></span></p>
<p style="text-align:justify;">Aos vinte e poucos anos de vida, Brasília vivenciava sua fase mais bonita: a juventude. Nesse contexto, surge a história de jovens que não viram a nova capital ser construída, que não viveram os dias difíceis que caracterizaram o Regime Militar nem a época de libertação marcada pelo movimento hippie e pela moda das discotecas. Mas acompanharam o crescimento da nova capital enquanto brincavam debaixo dos blocos residenciais; à medida que se preparavam para o já concorrido vestibular da Universidade de Brasília (UnB) nos mais conceituados colégios da cidade, esses jovens vivenciavam as novidades tecnológicas que eram apresentadas à sociedade de consumo e as tentativas de novos planos econômicos que marcaram a década. Na esfera cultural, admiravam musas como Xuxa e Luiza Brunet e atletas como Nelson Piquet, Ayrton Senna e Zico; ouviam os internacionais Madonna e Michael Jackson e começavam a curtir o som de bandas nacionais, como Barão Vermelho, Titãs e Kid Abelha &#8211; sem falar naqueles que surgiram justamente em Brasília, paralelamente ao boom do movimento punk: Os Paralamas do Sucesso, Plebe Rude, Legião Urbana e Capital Inicial. Já outros, respirando constantemente a atmosfera política do Planalto Central, tomavam para si a responsabilidade de fazer alguma coisa pela pátria, a exemplo dos seus pais nos anos de chumbo. vivendo assim a esfera do poder tão bem representado pela Praça dos Três Poderes</p>
<p style="text-align:justify;">Sou desta primeira geração nascida em Brasília. Meu nome é Gabriel Soares Raposo, nasci no dia 10 de novembro de 1966, filho do coronel Jorge Luís Raposo com a dona de casa Ester Soares Raposo. Tenho uma irmã, Isabela Soares Raposo, gêmea, bivitelina &#8211; portanto, não-idêntica, é bom explicar. Com minha irmã sempre dividi todos os momentos da minha vida, sejam eles bons ou ruins, inclusive o ato saudosista de reviver essa época tão especial. Espero que gostem e, desde já, peço desculpas pelo modo transparente e visceral com o qual eu exponho – com as devidas autorizações, é bom que fique claro &#8211; a intimidade de algumas pessoas.</p>
<p style="text-align:justify;">Não sou jornalista, nem escritor, nem historiador, mas estou aqui para contar a história de uma geração marcada pela transformação política, econômica e cultural de um país. Esta geração pode ser chamada de filhos da revolução.</p>
<p style="text-align:justify;"> </p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/patrickselvatti2.wordpress.com/88/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/patrickselvatti2.wordpress.com/88/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/patrickselvatti2.wordpress.com/88/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/patrickselvatti2.wordpress.com/88/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/patrickselvatti2.wordpress.com/88/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/patrickselvatti2.wordpress.com/88/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/patrickselvatti2.wordpress.com/88/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/patrickselvatti2.wordpress.com/88/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/patrickselvatti2.wordpress.com/88/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/patrickselvatti2.wordpress.com/88/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/patrickselvatti2.wordpress.com/88/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/patrickselvatti2.wordpress.com/88/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/patrickselvatti2.wordpress.com/88/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/patrickselvatti2.wordpress.com/88/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=patrickselvatti2.wordpress.com&amp;blog=4900067&amp;post=88&amp;subd=patrickselvatti2&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>OS FILHOS DA REVOLUÇÃO  &#8211; A volta da geração coca-cola</title>
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		<pubDate>Fri, 27 Mar 2009 23:38:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>patrickselvatti</dc:creator>
				<category><![CDATA[Introdução]]></category>

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		<description><![CDATA[Para muitos, os anos 80 foram uma década qualquer, uma época que deve ser esquecida, um tempo perdido. Em Brasília, não: paralelamente às principais alterações políticas que o País presenciou entre 1984 e 1989, estes anos significaram uma grande transformação cultural que alcançou todos os cantos do Brasil e algumas partes do mundo. Aos vinte [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=patrickselvatti2.wordpress.com&amp;blog=4900067&amp;post=80&amp;subd=patrickselvatti2&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><img class="alignleft size-full wp-image-81" title="capa1" src="http://patrickselvatti2.files.wordpress.com/2009/03/capa1.jpg?w=450&#038;h=657" alt="capa1" width="450" height="657" />Para muitos, os anos 80 foram uma década qualquer, uma época que deve ser esquecida, um tempo perdido. Em Brasília, não: paralelamente às principais alterações políticas que o País presenciou entre 1984 e 1989, estes anos significaram uma grande transformação cultural que alcançou todos os cantos do Brasil e algumas partes do mundo. Aos vinte e poucos anos de vida, a capital da república estava vivendo sua fase mais bonita: a juventude. Assim, em meio à campanha pelas eleições diretas e às primeiras bandas de rock candangas despontando para o Brasil, surge a história de um grupo de jovens que representam a primeira geração nascida em Brasília, são os filhos daquelas pessoas que acompanhou de perto a inauguração da nova capital e a revolução na década de 60. Em uma harmônica mistura de realidade e ficção, esse é o mote de <em>Os Filhos da Revolução, </em>romance que, a partir de poucos dias, você poderá acompanhar por aqui.</p>
<p style="text-align:justify;"><span id="more-80"></span></p>
<p style="text-align:justify;">Produzido com recursos do Fundo da Arte e da Cultura (FAC) da Secretaria de Cultura do Distrito Federal, o livro conta a trajetória de um casal de gêmeos, Isabela e Gabriel, filhos de um militar conservador com uma dona de casa subserviente. O romance acompanha o caminho dos irmãos e seus amigos, que passam da adolescência para a idade adulta, fazendo descobertas como o grande amor, a sexualidade, as carreiras profissionais que pretendem seguir e a difícil relação entre pais e filhos. <em>Os Filhos da Revolução</em> aborda, com sensibilidade, respeito e boa dose de informação, temas pertinentes à juventude contemporânea, como amizade, virgindade, gravidez, aborto, drogas, delinqüência juvenil, homossexualidade e AIDS, tendo como pano de fundo o cenário de Brasília no ápice da década de 80.</p>
<p style="text-align:justify;">A história tem início no ano de 1984 e segue até os dias atuais, passando por diversas transformações políticas, sociais e culturais que a jovem capital federal presenciou: a campanha &#8220;Diretas já&#8221;, o boom do rock nacional, o surgimento do movimento punk, as eleições presidenciais, os caras-pintadas, as copas do mundo, a trajetória de Lula ao poder, o escândalo do Mensalão e até a tribo dos emos. Durante a leitura das 212 páginas do livro, o leitor poderá cruzar com personalidades como Renato Russo, Dinho Ouro Preto, Cássia Eller e Zélia Duncan, relembrar músicas que embalaram os encontros românticos da época – como Total Eclipse of the Heart, de Bonnie Tyler, Forever Young, de Alphaville, e Careless Whisper, de George Michael – e incendiaram as pistas de dança – como Billie Jean, de Michael Jackson, e Like a Virgin, Madonna, e What a Feeling!, de Irene Cara.</p>
<p style="text-align:justify;">Por meio deste livro, o leitor poderá acompanhar uma história de ficção que certamente fará com que reconheça, em algum personagem ou situação, alguma semelhança com sua própria vida. <em>Os Filhos da Revolução</em> é uma viagem no tempo, não só revisitando a história recente de Brasília como também a história de cada um de nós.</p>
<p style="text-align:justify;"> </p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/patrickselvatti2.wordpress.com/80/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/patrickselvatti2.wordpress.com/80/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/patrickselvatti2.wordpress.com/80/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/patrickselvatti2.wordpress.com/80/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/patrickselvatti2.wordpress.com/80/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/patrickselvatti2.wordpress.com/80/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/patrickselvatti2.wordpress.com/80/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/patrickselvatti2.wordpress.com/80/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/patrickselvatti2.wordpress.com/80/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/patrickselvatti2.wordpress.com/80/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/patrickselvatti2.wordpress.com/80/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/patrickselvatti2.wordpress.com/80/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/patrickselvatti2.wordpress.com/80/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/patrickselvatti2.wordpress.com/80/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=patrickselvatti2.wordpress.com&amp;blog=4900067&amp;post=80&amp;subd=patrickselvatti2&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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